segunda-feira, 18 de maio de 2009

POR SER DE JUSTIÇA!

Não tenho a mínima dúvida em solidarizar-me com a campanha lançada pela Fundação Nogueira Tapety no sentido de indicar o Professor Possidônio Nunes de Queiroz para dignitário da Medalha da Ordem do Mérito Cultural.

O professor Possidônio representou a essência do refinamento de espírito. O traço comum da sua personalidade era o gosto de explorar seus pendores e a valorização da inteligência. Sempre desejoso de purificar o espírito o fazia através do estudo, da dedicação às artes, numa constante, permanente e saudável prática de afinamento das idéias. Sabia, e estava certo, que "estudar é polir pedra preciosa, é lavrar a alma."

Desde cedo demonstrou seus pendores pela música.Tomou-se de encanto pelo instrumento que, conforme dizia, "Mársias* criou e Patápio Silva imortalizou"; a flauta, que dominava com singular destreza e foi sua grande companheira de serenatas que tanto encantavam as famílias oeirenses.

A música, certamente, foi um dos meios pelos quais esse extraordinário cidadão procurou dar vazão à capacidade criativa que o fez diferente. Com certeza, por saber que a música é única linguagem universal que eleva todas as almas para o que é bom, justo e belo; porque é o "...vapor da arte. Está para a poesia como o devaneio para o pensamento, como o fluido para o líquido, como o oceano de nuvens para o oceano de ondas. A música é o indefinido no infinito," no dizer do grande Vitor Hugo

Foi um dos maiores incentivadores, em sua terra, sobretudo da juventude, para o estudo da música, sendo responsável pela criação de várias orquestras, organizadas e regidas por ele, destacando-se a mais famosa, de nome "Renascença", com seus violões de belos acordes, bandolins harmoniosos e suaves.

Possidônio sempre teve grande preocupação na preservação da história de Oeiras. A sua vida de intelectual, toda ela, está marcada pela participação nas grandes causas de Oeiras, quer empunhando bandeiras na defesa dos interesses da cidade, quer comandando movimentos de resguardo da sua memória, do seu passado.

E porque sabe que nada representa melhor o passado como a música, que até muito mais do que simplesmente representá-lo, evoca-o, reavivando, num átimo, tempos idos e vividos, adormecidos nos esconsos da memória, fez dela instrumento valioso de preservação da história daquele sertão bruto, de chão glorioso.


Moisés Reis

* Mársias é um personagem da mitologia grega. Encontrou a flauta que Atena tinha inventado e, mais tarde, havia descartado porque ao tocá-la suas bochechas ficavam muito inchadas.

Mársias tornou-se um músico tão perfeito que desafiou Apolo a uma competição, onde o vencedor teria direito de punir o perdedor. Apolo ganhou e escalpelou Mársias. Do sangue do músico nasceu o rio Mársias.(fonte wikipedia)

UMA TROCA DE E- MAILS COM O MINC

De: Joca Oeiras [mailto:jocaoeiras@yahoo.com.br]
Enviada em: quinta-feira, 7 de maio de 2009 01:04
Para: Ordem do Merito 2009
Assunto: Indicação para Medalha

Queridos amigos (as)

Estou propenso a indicar uma pessoa por demais especial para receber, in memórian, a medalha do mérito Cultural 2009.

Trata-se de um negro, autodidata, músico e compositor, intelectual respeitadíssimo em sua terra a ponto de ser considerado o mais importante intelectual e humanista oeirense (de Oeiras-PI) no século XX. Como compositor de valsas, foi descoberto pelo maestro Emmanuel Coelho Maciel como alguém cuja obra merece particular destaque. Mas além de diminuta, a obra musical de Possidônio Queiroz perdeu-se em sua maior parte.

Resumindo: não acho nem justo nem correto indicar o professor Possidônio Queiroz, é desse homem que se trata, para esta medalha apenas por sua obra musical, apesar, repito, da reconhecida importância dela.

Então, convencido como estou de que há poucas pessoas vivas ou mortas no Brasil que mereçam, tanto quanto ele, esta medalha, tendo a achar que a categoria correta para indicá-lo seria "Humanidades", se é que entendi o que se pretende traduzir com este termo. Estou-lhes escrevendo na esperança de que possam me ajudar. Pensei , também em "Outras", mas acho que "Outras"excluem, por exemplo, a música, o que não vem ao caso.

Além disso, gostarei de saber que dimensão devo dar tanto à justificativa quanto ao currículo e se, visto que se trata de uma homenagem "in memorian", devo fazer constar o endereço de algum de seus descendentes.Fico no aguardo de uma resposta
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Em seg, 18/5/09, Ordem do Merito 2009 escreveu:
De: Ordem do Merito 2009 ordemdomerito2009@cultura.gov.br
Assunto: RES: Indicação para Medalha
Para: "Joca Oeiras" jocaoeiras@yahoo.com.br
Data: Segunda-feira, 18 de Maio de 2009, 8:31
Prezado Senhor,

Cabe a você escolher a categoria que mais expressa a pessoa escolhida, pois você é quem conhece o trabalho do indicando. Aguardamos o envio do seu formulário.

Atenciosamente,

Cleusmar Fernandes (61) 3316 2229
Zuleide Pereira (61) 3316 2309

FÁBRICA DE SONHOS

"Agora a fábrica se fechou para sempre. Resta aos velhos habitantes da região apenas a lembrança dos áureos tempos, em que havia ali muito gado, muito trabalho, dando a todos a feliz sensação de paz e progresso. Hoje quem passa por Campos, atualmente Campinas do Piauí, tem a ver apenas o melancólico espetáculo do imponente prédio, cuja majestosa chaminé aponta, em segredo, ou silenciosamente para o céu, como sinal de protesto, como grito solene contra a ação depredatória que destruiu, transformando numa ruinaria, a opulenta fábrica que foi uma das mais importantes da América do Sul." Possidonio Queiroz. Ph. André Pessoa

domingo, 17 de maio de 2009

POSSIDÔNIO E A FÁBRICA DE SONHOS

A Fábrica em funcionamento no início do século
(Notas rabiscada por Possidônio Queiroz a pedido da Sra. Dona Júlia de Carvalho Nunes, em 16 de junho de 1972)

No antigo povoado denominado Campos, do município de Simplício Mendes, hoje cidade de Campinas do Piauí, levantou-se, outrora, imponente, pela vasta área ocupada e pela grandiosidade arquitetônica de suas linhas, o edificio da fábrica de manteiga, hoje extinta, conhecida por fábrica dos Campos.

Ao tempo de sua instalação, certamente nos primeiros anos da República, era a citada fábrica considerada uma das melhores da América do Sul.

Como é sabido, situava-se a fábrica em tela em terreno das afamadas Fazendas Nacionais, hoje Fazendas Estaduais. Ditas fazendas provém de uma doação feita aos padres jesuitas do colégio da Bahia, pelo famigerado Domingos Afonso Mafrense. Mafrense, a quem o Piauí deve, como seu povoador, como seu desbravador, homem riquíssimo, fez seu testamento em maio de 1711, em Salvador, e no documento, deixou a administração das suas muitas fazendas de gado aos jesuítas, que deviam incrementar o crescimento das mesmas fazendas e de sua renda, promover benefícios a viúvas, órfãos, criação de capelas, etc.

As fazendas eram, ao tempo do testamento, em número de 30, e essas os jesuítas receberam. Mafrense fizera seu testamento em 12 de maio de 1711 e faleceu poucos dias depois, em junho do referido ano.

Homens inteligentes, laboriosos não há dúvida, fizeram os jesuítas uma excelente administração. No entanto, parece que fizeram algo merecedor da alta reprovação de el-rei. Os alvarás de 19n de janeiro de 1759 e de 3 de fevereiro do mesmo ano, no-lo dizem. Estes alvarás declaram os jesuítas banidos e proscritos de Portugal e seus domínios. João Pereira Caldas, 1° governador do Piagohy, aqui chegado em setembro de 1759, deu, em 1760 cumprimento às determinações dos citados alvarás. Os padres foram presos e remetidos para a Bahia. As fazendas já eram trinta e nove (39)..

No ano de 1811 fez-se um levantamento ou inventário das Fazendas e constatou-se que nelas havia: 498 escravos, 1010 cavalos, 1860 éguas e 50760 cabeças de gado vacum.

Outro levantamento foi processado no ano de 1825. O resultado foi o seguinte: as fazendas ocupavam uma área de 145 léguas de extensão por 75 de largura, havia nelas 773 escravos , 49264 cabeças de gado vacum, 11906 bezerros 3598 cavalos e 908 poldros.

Valioso patrimonio, parece, no entanto, davam as fazendas mais trabalho do que lucro ao erario público. Isto se depreende das reiteradas ordens de venda ou arrematação das mesmas fazendas. Algumas chegaram efetivamente a ser vendidas em hasta públicas, no ano de 1854.

No ano de 1889 foi celebrado, no Tesouro Nacional, um contrato de arrendamento com o Dr. Antônio José Sampaio, e conseqüente arrendamento das Fazendas

Do contrato firmado, obrigava-se o Dr. Sampaio a instalar nas Fazendas uma fábrica de laticínios e a melhorar a qualidade do gado, com a introdução de reprodutores de qualidade. Obrigava-se também a desenvolver, em larga escala, a criação de gado lanigero, bem como praticar a criação cavalar com indivíduos de sangue bom, tudo no sentido de dar à criação piauiense melhor e mais alto valor. O arrendatário pagaria vinte contos de reis, ou seja 20 cruzeiros em moeda atual .No fim de prazo contratual, seriam as fazendas vendidas por 400 contos de reis, ou seja, quatrocentos cruzeiros na moeda atual.

Como se vê o arrendamento era barato. Vinte cruzeiros anuais. As fazendas não foram vendidas Hoje valem as mesmas muitos bilhões de cruzeiros, a despeito de haver desaparecido, quase que totalmente, a gadaria que outrora cobria seus fertilíssimos campos.

A Fábrica de Campos funcionou durante vários anos produzindo manteiga de alta qualidade, manteiga que era um orgulho da indústria piauiense. Depois a cousa desapareceu.

No governo do Exmo. Tenente Landry Sales (1931-1934, nota do editor) foi a citada fábrica restaurada. Funcionou algum tempo, fornecendo manteiga boa, rica e saborosa.

Agora a fábrica se fechou para sempre. Resta aos velhos habitantes da região apenas a lembrança dos áureos tempos, em que havia ali muito gado, muito trabalho, dando a todos a feliz sensação de paz e progresso. Hoje quem passa por Campos, atualmente Campinas do Piauí, tem a ver apenas o melancólico espetáculo do imponente prédio, cuja majestosa chaminé aponta, em segredo, ou silenciosamente para o céu, como sinal de protesto, como grito solene contra a ação depredatória que destruiu, transformando numa ruinaria, a opulenta fábrica que foi uma das mais importantes da América do Sul.

RELEMBRANÇA DE POSSIDÔNIO

Conheci Possidônio Queiroz em agosto de 1989... Não soube, então, de sua extraordinária obra musical. Com efeito, só vim a conhecê-la muitos anos depois, através de um CD denominado “Valsas Piauienses”, produzido pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves – FCMC, em que a Orquestra de Câmara de Teresina, sob a regência do grande maestro Emmanuel Maciel, coadjuvado por seu filho Vítor Maciel, executava suas belíssimas valsas. Esse regente, mediante acurado e meticuloso trabalho, lhe resgatou a obra musical, dando-lhe novos e belos arranjos, tanto através desse CD como de um livro, no qual lhe transcreveu várias partituras. É de se ressaltar, também, o empenho da Orquestra de Bandolins de Oeiras, que por intermédio da magia dos dedos ágeis de talentosas senhoras, não deixam cair no esquecimento a sublime música de Possidônio, tanto em suas esporádicas apresentações, como por meio do CD “Bandolins de Oeiras”, que, imortais, imortalizarão essa música divina, que nada deve às magníficas valsas vienenses, dos célebres Strauss.

As valsas do mestre são de timbre erudito, de caprichosa tessitura e variados movimentos. Formam microvalsas contidas numa valsa maior, que lhes dá o formato de rica unidade. Por vezes alcançam a culminância suntuosa de uma catedral, mas contendo, na sucessividade e perfeito encadeamento das frases musicais, a beleza miúda e detalhista de uma ourivesaria minimalista e perfeita. Música que suporta ser ouvida infinitas vezes, com o mesmo encantamento e cheiro de novidade da vez primeira, que não se esvai com o tempo, mas que, com o passar das eras, se torna ainda mais apetecível.

Como prosador, era um mestre, um estilista esmerado, na construção de frases perfeitas, rítmicas, repassadas de emoção e beleza, embebidas de denso conteúdo, sempre pertinente, desprovido dos arrotos da erudição balofa e exibicionista. Creio ser fora de dúvida que a formação musical de Possidônio se deu na primeira metade do século passado. Causa espanto, como numa época dessa, em que Oeiras, como de resto todo o Piauí, vivia mergulhada em profundo insulamento cultural, em que os preconceitos da elite eram maiores, um negro pobre pudesse alcançar o patrimônio intelectual e musical, que ele amealhou, autodidata que era. Certamente o foi através da perseverança de indormidas noites de estudo, mercê de uma poderosa disciplina e vocação para as letras e para a música. Sobretudo pelas dificuldades de comunicação e intercâmbio, em que não se dispunha, como hoje, de um serviço de correios mais ágil, em que as informações e materiais artísticos podem ser obtidos por reembolso postal, serviço de encomenda postal, pedidos por fax, carta, telefone, Internet etc., sendo que esta última, além de se constituir como um verdadeiro shopping center virtual,é ainda fonte caudalosa de cultura e notícias.

Vi o Bruxo Velho de Oeiras, como o cognominou Carlos Rubem, em bela e brincalhona alusão ao epíteto de Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho, pela derradeira vez, no Cine-Teatro Oeiras, quando do lançamento de um livro sobre sua excelsa obra musical, em que se apresentou a Orquestra de Câmara de Teresina, sob a regência do maestro Emmanuel Maciel. O mestre Possidônio, surdo, colocava a cabeça dentro das cavidades das caixas amplificadoras, na ânsia inglória de escutar as sublimidades que ele próprio criara. Lembrou-me Beethoven, sem poder ouvir a música extraordinária que produzira e nem os aplausos delirantes que o seu gênio divino arrancava. Lembrou-me, também, os versos de Drummond: “Era meu avô já surdo, / querendo escutar as aves / pintadas no céu da igreja”. E a música do sacerdotal Possidônio era como uma catedral soberba, que tudo envolvia, em que éramos os crentes e o culto era o êxtase dessa música celeste.


Elmar Carvalho

HiNO À CATEDRAL

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sábado, 16 de maio de 2009

CARTÃO POSTAL

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