Transcrevemos, abaixo, o texto utilizado para justificar , perante o MinC, a indicação do Professor Possidônio Nunes de Queiroz para dignitário da Medalha da Ordem do Mérito Cultural-2009
Apresentação:
Senhores:
É com incontida satisfação e sadio orgulho que a Fundação Nogueira Tapety FNT, indica, para recepção “in memóriam” da Medalha da Ordem do Mérito Cultural o Professor Possidônio Nunes de Queiroz.
O que faz, os que nela militam, orgulhosos e contentes, no entanto, não é o sentimento ególatra de serem os donos da verdade mas a certeza de que falam em nome de uma quantidade imensurável de pessoas, muitas das quais conviveram com ele, outras que, através de seus pais, aprenderam a amá-lo e respeitá-lo e outros ainda que, tomando conhecimento de sua frutuosa e exemplar existência, concluíram tratar-se de pessoa, por todos os títulos, merecedora do recebimento daquele galardão.
Fala, também, a FNT – agora por procuração assinada – em nome de mais de duas dezenas de pessoas que, nos últimos dias, deixaram, no blog http://medalhapossi.blogspot.com/ , depoimentos acerca de consistência da aludida indicação. Em ordem alfabética:
Aécio Nordmam – Amadeu Reis - Anna Bárbara Sá - Carla Martins - Carlos Rubem Campos Reis - Cineas Santos - Dagoberto de Carvalho Júnior- Elmar Carvalho - Emmanuel Coelho Maciel - Ferrer Freitas - Francisco Pereira Ferraz - Francisco Stefano Ferreira - Gisleno Feitosa - Gutemberg Rocha - Joca Oeiras - José Expedito Rêgo (in memoriam) - José Lopes dos Santos (in memoriam) - Laís Lopes Reis - Luiz Lopes Sobrinho (in memoriam) - Marcos Miranda – Moisés Reis - Rita Campos - Rita de Zé Gomes - Rogério Newton - Solimar de Oliveira Lima - Zé de Helena
Justificativa:
Possidônio Queiroz nasceu em 17 de maio de 1904. Era negro e não teve educação formal. Viveu, praticamente, toda sua vida na antiga capital do Piauí, a histórica cidade de Oeiras que, com a mudança da capital para Teresina, em 1852, foi abandonada, de forma absolutamente vergonhosa, à sua própria sorte, pelos poderes públicos provincial e imperial. Basta dizer que Oeiras passou anos sem ter sequer uma escola, já que a anteriormente existente, o Liceu Piauense, foi transferida, com a capital, para Teresina.
Foi esta a Oeiras que o viu nascer, uma cidade, sem dúvidas, traumatizada. De certa forma, como bem lembrou o escritor oeirense Dagoberto de Carvalho Júnior, é impossível falar da Oeiras do século XX, omitindo a existência de Possidônio. De todos os movimentos cívicos ocorridos na velha urbe, como ele gostava de chamá-la, sempre esteve na vanguarda quando se tratava da preservação da riquíssima tradição histórico-cultural oeirense.
“Como indivíduo que não possui sequer diploma do curso primário, me arrojei muitas vezes..." diria ele, em 1990, num “bilhete” de sete páginas datilografadas dirigido a uma amiga. Voltarei a falar desse documento.
Também na música – exímio flautista, segundo consta, e compositor de belas valsas – foi um intuitivo autodidata. Fascinado por ela, mesmo assim jamais apresentou-se profissionalmente. Aliás, é bom que se ressalte, poucas vezes deixou a sua amada Oeiras. No mesmo “bilhete”, já citado, Possidônio roga permissão para “lembrar, à ligeira, as vezes em que, chamado, pude atender à voz da velha terra. E isso sem exigir nem um –Muito Obrigado!”
Do tal “bilhete” além de tudo o mais, é necessário fixar a data, 1990. Aos 86 anos Possidônio já era respeitadíssimo por tudo o que significava para os oeirenses – um renomado professor, um intelectual que tudo sabia, alguém sempre disposto a ajudar e ensinar, um orador incansável, um músico apreciado – o jardineiro Zé de Helena, o mais velho homoxessual de Oeiras já o chamava “Divina Arte” – porém ainda não havia o reconhecimento devido como compositor. Foi o que ocorreu, no início dos anos 90, no final de sua vida, quando seu extraordinário talento musical foi descoberto pelo maestro Emanuel Coêlho Maciel. Apenas para se ter uma idéia, transcrevo, abaixo, um pequeno trecho de uma entrevista concedida pelo Maestro à Revista “Pulsar” n.º1 (Março-Junho de1998)
“Eu o defino como um músico de extremo talento. Um talento extraordinário, uma inventiva fora de série. Porque você vê uma pessoa que viveu a vida toda aqui em Oeiras, longe dos meios de comunicação, sobretudo naquela época, 40/50 anos atrás ele conseguiu fazer uma obra duradoura. Possidônio não teve estudo, foi autodidata com a música, então posso dizer que a obra dele é de um grande aspecto intuitivo. Ele produziu uma obra pequena, o que a gente conseguiu recolher foi pouco, mas como ele mesmo nos disse, os cupins comeram muita coisa. Eu tenho certeza que é uma obra que merece ser conhecida até no exterior e, chegando lá, vão dar o devido valor”.
Maestro Emmanuel Coêlho Maciel
Pode-se dizer que esta “descoberta” – o reconhecimento, por parte de um grande maestro, do valor de sua obra musical – no final de sua vida veio dar uma nova dimensão ao grande, amado e respeitado intelectual humanista que chegou a ser comparado, por alguns, com um oráculo. Afinal tratava-se de um músico “de extremo talento”!
Aqui passamos a transcrever pequenos “spots” significativos dos depoimentos recolhidos no BLOG DA CAMPANHA “UMA MEDALHA PARA POSSIDÔNIO QUEIROZ” (http://medalhapossi.blogspot.com/)
Para o Professor Solimar, do Mestrado em História na UFPI, “A experiência de Possidônio como cidadão talvez seja seu maior legado. Conceder-lhe uma medalha é um carinhoso obrigado a um mestre da arte e da vida."
Já o professor Cineas Santos, presidente da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, de Teresina-Pi, considera que “...Pesquisador, historiador, músico, Possidônio era, acima de tudo, um professor. Gostava de ensinar, de explicar, de revelar.Prestou inestimáveis serviços à cultura piauiense e faz jus a qualquer homenagem”
O Advogado Dr. Moises Reis vê em Possidônio “a essência do refinamento de espírito. O traço comum da sua personalidade era o gosto de explorar seus pendores e a valorização da inteligência. Sempre desejoso de purificar o espírito o fazia através do estudo, da dedicação às artes, numa constante, permanente e saudável prática de afinamento das idéias. Sabia, e estava certo, que ‘estudar é polir pedra preciosa, é lavrar a alma’”
O poeta professor e jornalista Stefano Ferreira, ex Secretário de Cultura de Oeiras, acha que “Possidônio Queiroz precisa ser reconhecido nacionalmente, por sua obra musical universal, pois mesmo compondo valsas de influência regional, as fez à moda dos grandes mestres da música clássica européia.”
Para Antonio Reinaldo Soares Filho, o Soarinho, que foi seu aluno no Ginásio Municipal Oeirense nos idos de 1961/62 “O professor Possidônio se entregou com todas as suas forças àquela missão de mestre. Jamais tratou um discípulo seu com descortesia. Não fazia diferenciação entre os que pertenciam à classe privilegiada e os menos afortunados. Somente encontrava-se afável e condescendente, mesmo quando recebia incompreensões daqueles imaturos jovens, deslumbrados com o início de suas vidas. Ele também sabia esta verdade e perdoava sem deixar qualquer rancor. Suas aulas não eram apenas ensinamento de português, mas também lições de vida”.
O escritor Dagoberto de Carvalho Jr lembra que “No cenário cultural da antiga capital teve a dimensão de seu valor e a longevidade que o fez contemporâneo do século. Participou ativa e brilhantemente de todas as grandes campanhas e iniciativas que se fizeram – como gostava de dizer – a prol da velha urbe”.
“Oeiras nunca esquecerá a notável contribuição de Possidônio Queiroz. Estamos certos de que a homenagem agora defendida, levará ainda mais longe seu digno exemplo de cidadania e engajamento”assim pensa a Sra. Carla Laurentino Martins, Secretária da Cultura do Município de Oeiras
Afirma o Sr Francisco Pereira Ferraz, em depoimento datado de 17 de maio de 2004 (data em que, se vivo estivesse, Possi estaria completando 100 anos), “Os atos e os fatos mais notáveis da caminhada do provecto Professor Possidônio Nunes de Queiroz, foram, a bem da verdade, sua inquestionável solidariedade, fraternidade e amor ao próximo, mercê de sua humildade, lealdade, sinceridade e seu estado permanente e lúcido em lidar com o perfeccionismo, tendo como lema máximo, a verdade, fonte de toda sua invulgar sapiência. Todos aqueles que tiveram o prazer e o privilégio de manter com ele qualquer tipo de diálogo, ficavam extasiados com sua notabilíssima faculdade de reter idéias, impressões ou quaisquer informações de toda ordem, adquiridas ao longo do tempo.”
Um interessante depoimento nos foi prestado por um teresinense, Gisleno Feitosa, que, dias antes, ainda não tinha ouvido falarem do professor (esse vai na íntegra)
“Seu” Joca Oeiras (anjo andarilho):
Atolado na minha flácida ignorância, o via falar tanto de Possidônio Queiroz e nem me aluía. Quando troco de carro costumo “equipá-lo” com um CD ou DVD novo ou diferente. No último, pus um de valsinhas a fim de amenizar o sofrimento na “via crucis” (qualquer umas das pontes que ligam o centro à zona leste) da volta ao lar, toda santa noite.
Gostei tanto que nunca mudei. Minto: só o revezei, algumas vezes com o “Nascente” de Erisvaldo Borges. Pois não é que, por acaso, ele ejetou, dia desses. Imagine a minha cara de abestalhado ao ler o nome: “Valsas Piauienses” de Possidônio Nunes Queiroz.
O “Mestre” tão pertinho de mim, tocando pra mim e eu nem me tocava (desculpe a infâmia do trocadilho). Se não fosse por você, eu ainda estaria boiando! Confúcio tem mais do que razão quando diz que "A ignorância é a noite da mente: mas uma noite sem lua e sem estrelas."
Obrigado por ter desanuviado minha mente.
Do seu criado e leitor. Gisleno Feitosa”
Há, é claro, outros tantos depoimentos tão significativos quanto os acima citados. Só não iremos transcrevê-los porque o teor deles é muito semelhante a esses e, além disso, estão todos eles disponíveis para serem consultados no http://medalhapossi.blogspot.com/
Por isso podemos dizer que não se trata de um palpite ou capricho de vontade: a indicação do Professor Possidônio Nunes de Queiroz para receber, in memóriam, o galardão da OMC tem a concordância de dez em cada dez pessoas que com ele conviveram ou mesmo apenas ouviram falar. Trata-se Possidônio, hoje, de um personagem legendário que honrou e dignificou, como poucos, não apenas sua cultura mas a própria Humanidade no que ela tem de melhor.
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