domingo, 17 de maio de 2009

POSSIDÔNIO E A FÁBRICA DE SONHOS

A Fábrica em funcionamento no início do século
(Notas rabiscada por Possidônio Queiroz a pedido da Sra. Dona Júlia de Carvalho Nunes, em 16 de junho de 1972)

No antigo povoado denominado Campos, do município de Simplício Mendes, hoje cidade de Campinas do Piauí, levantou-se, outrora, imponente, pela vasta área ocupada e pela grandiosidade arquitetônica de suas linhas, o edificio da fábrica de manteiga, hoje extinta, conhecida por fábrica dos Campos.

Ao tempo de sua instalação, certamente nos primeiros anos da República, era a citada fábrica considerada uma das melhores da América do Sul.

Como é sabido, situava-se a fábrica em tela em terreno das afamadas Fazendas Nacionais, hoje Fazendas Estaduais. Ditas fazendas provém de uma doação feita aos padres jesuitas do colégio da Bahia, pelo famigerado Domingos Afonso Mafrense. Mafrense, a quem o Piauí deve, como seu povoador, como seu desbravador, homem riquíssimo, fez seu testamento em maio de 1711, em Salvador, e no documento, deixou a administração das suas muitas fazendas de gado aos jesuítas, que deviam incrementar o crescimento das mesmas fazendas e de sua renda, promover benefícios a viúvas, órfãos, criação de capelas, etc.

As fazendas eram, ao tempo do testamento, em número de 30, e essas os jesuítas receberam. Mafrense fizera seu testamento em 12 de maio de 1711 e faleceu poucos dias depois, em junho do referido ano.

Homens inteligentes, laboriosos não há dúvida, fizeram os jesuítas uma excelente administração. No entanto, parece que fizeram algo merecedor da alta reprovação de el-rei. Os alvarás de 19n de janeiro de 1759 e de 3 de fevereiro do mesmo ano, no-lo dizem. Estes alvarás declaram os jesuítas banidos e proscritos de Portugal e seus domínios. João Pereira Caldas, 1° governador do Piagohy, aqui chegado em setembro de 1759, deu, em 1760 cumprimento às determinações dos citados alvarás. Os padres foram presos e remetidos para a Bahia. As fazendas já eram trinta e nove (39)..

No ano de 1811 fez-se um levantamento ou inventário das Fazendas e constatou-se que nelas havia: 498 escravos, 1010 cavalos, 1860 éguas e 50760 cabeças de gado vacum.

Outro levantamento foi processado no ano de 1825. O resultado foi o seguinte: as fazendas ocupavam uma área de 145 léguas de extensão por 75 de largura, havia nelas 773 escravos , 49264 cabeças de gado vacum, 11906 bezerros 3598 cavalos e 908 poldros.

Valioso patrimonio, parece, no entanto, davam as fazendas mais trabalho do que lucro ao erario público. Isto se depreende das reiteradas ordens de venda ou arrematação das mesmas fazendas. Algumas chegaram efetivamente a ser vendidas em hasta públicas, no ano de 1854.

No ano de 1889 foi celebrado, no Tesouro Nacional, um contrato de arrendamento com o Dr. Antônio José Sampaio, e conseqüente arrendamento das Fazendas

Do contrato firmado, obrigava-se o Dr. Sampaio a instalar nas Fazendas uma fábrica de laticínios e a melhorar a qualidade do gado, com a introdução de reprodutores de qualidade. Obrigava-se também a desenvolver, em larga escala, a criação de gado lanigero, bem como praticar a criação cavalar com indivíduos de sangue bom, tudo no sentido de dar à criação piauiense melhor e mais alto valor. O arrendatário pagaria vinte contos de reis, ou seja 20 cruzeiros em moeda atual .No fim de prazo contratual, seriam as fazendas vendidas por 400 contos de reis, ou seja, quatrocentos cruzeiros na moeda atual.

Como se vê o arrendamento era barato. Vinte cruzeiros anuais. As fazendas não foram vendidas Hoje valem as mesmas muitos bilhões de cruzeiros, a despeito de haver desaparecido, quase que totalmente, a gadaria que outrora cobria seus fertilíssimos campos.

A Fábrica de Campos funcionou durante vários anos produzindo manteiga de alta qualidade, manteiga que era um orgulho da indústria piauiense. Depois a cousa desapareceu.

No governo do Exmo. Tenente Landry Sales (1931-1934, nota do editor) foi a citada fábrica restaurada. Funcionou algum tempo, fornecendo manteiga boa, rica e saborosa.

Agora a fábrica se fechou para sempre. Resta aos velhos habitantes da região apenas a lembrança dos áureos tempos, em que havia ali muito gado, muito trabalho, dando a todos a feliz sensação de paz e progresso. Hoje quem passa por Campos, atualmente Campinas do Piauí, tem a ver apenas o melancólico espetáculo do imponente prédio, cuja majestosa chaminé aponta, em segredo, ou silenciosamente para o céu, como sinal de protesto, como grito solene contra a ação depredatória que destruiu, transformando numa ruinaria, a opulenta fábrica que foi uma das mais importantes da América do Sul.

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