terça-feira, 26 de maio de 2009

A ARMA SECRETA

Muita gente afirma que o traço mais marcante na personalidade de Possi era o seu permanente desejo de transmitir conhecimento. Deu aulas de Português, por anos, no, para muitos saudoso, Ginásio Municipal Oeirense e, é claro, nem todos os alunos tinham interesse em aprender. E foi assim pela vida toda, nem sempre encontrou platéias ávidas em ouvi-lo. Nada disso o fazia esmorecer ou, sequer, irritar-se.

Certa vez o Dr Bill lhe perguntou como conseguia manter-se sempre tão calmo e complacente em qualquer situação, por mais crítica que fosse. Sua resposta foi uma revelação: – Jovem, tenho uma provisão de paciência!

A VERDADE SEM PERDER A TERNURA

Uma palavra má nunca manchou os seus lábios (Luiz Lopes Sobrinho)
Amadeu Reis, o Amadeuzinho,é uma das figuras mais encantadoras que já que conheci na minha vida. Atrapalhado, na definição de alguns, tem nesse seu jeito, e no fato de nunca se avexar por causa disso, um charme todo especial. Ao dirigir-se, por exemplo, ao grande escritor oeirense OG Rego de Carvalho, autor de “Rio Subterrâneo” saiu-se com esta: Geraldo, li aquele seu livro “Mar Mediterrâneo” mas confesso que não entendi nada!

Ele, que já foi Adjunto de Promotor Público e Juiz de Direito da Comarca de Oeiras, conta , sem o menor constrangimento, achando, mesmo, muita graça que, um belo dia, Possidônio recebeu correspondência da filha de Luiz Carlos Prestes, Anita Leocádia, agradecendo a calorosa recepção prestada a seu pai (1987) Quando a carta chegou estavam, Amadeuzinho e Possi, conversando defronte à casa do professor. Enxergando mal, Possidônio pediu ao amigo que lesse a carta. E o Amadeuzinho não se fez de rogado. Terminada a leitura, perguntou: – gostou? Possi, incapaz de ser indelicado ou de mentir, sapecou: - Jovem, você leu elogiavelmente mal!
Joca Oeiras

segunda-feira, 25 de maio de 2009

POSSIDÔNIO HISTORIADOR


Fac-simile do 1º número de "O Cometa"


A cidade de Oeiras teve no professor Possidônio Nunes de Queiróz um dos seus mais dedicados filhos. A história de Oeiras – e a do Piauí – não seria a mesma sem a presença do professor Possidônio. O seu amor incondicional pela cultura o fez resgatar páginas da história do Piauí. A sua preocupação com a juventude o levou para o Ginásio Municipal Oeirense, onde ensinou a língua pátria a várias gerações. A sua flauta mágica encantava seletas platéias expressando valsas da mais excelsa harmonia, produtos de sua própria criatividade. Compôs músicas para os hinos de Oeiras. Autodidata, exegeta dedicado a literatura clássica Greco - Romana, dominava a ciência do Direito. Homem de profunda convicção religiosa foi ardente defensor da criação da Diocese de Oeiras. Emprestou o seu conhecimento e se posicionava na linha de frente de luta pelas boas causas em defesa do patrimônio cultural, artístico e arquitetônico da primeira capital.
Antônio Reinaldo Soares Filho


Professor Possidônio
*Antônio Reinaldo Soares Filho
Oeiras despertou para 1996 sentindo a falta de seu filho Possidônio Nunes de Queiróz, que falecera aos 93 anos de idade. Para os que foram seus alunos no Ginásio Municipal de Oeiras entre 1961 e 1962 ficam a saudade e a dívida de gratidão, pelos ensinamentos da língua pátria que ele tão dedicadamente semeou.

O professor Possidônio se entregou com todas as suas forças àquela missão de mestre. Jamais tratou um discípulo seu com descortesia. Não fazia diferenciação entre os que pertenciam à classe privilegiada e os menos afortunados. Somente encontrava-se afável e condescendente, mesmo quando recebia incompreensões daqueles imaturos jovens, deslumbrados com o início de suas vidas. Ele também sabia esta verdade e perdoava sem deixar qualquer rancor. Suas aulas não eram apenas ensinamento de português, mas também lições de vida.

Seus ex-alunos se recordam das vezes que ficavam distraídos, sem prestar a devida atenção às aulas. Naqueles momentos, ele com paciência, gesticulando pausadamente para dar mais ênfase exclamava: “Oh! Jovens, observai o exemplo de nossos antigos sábios, estudai, aproveitai vosso tempo”. E ele buscava na arcaica Grécia, de séculos antes de Cristo, a sabedoria e os ensinamentos de Platão e de Sócrates que tão profundamente conhecia. Muitos de nós tomamos pela primeira vez conhecimento daqueles grandes clássicos através das admiráveis citações de seus feitos. Sempre cumpriu rigorosamente o horário de início das suas aulas, sem, contudo render-se ao sinal de encerramento. Às vezes divagava e passava a dissertar sobre filosofia, astronomia, botânica, música a até as matemáticas.

Em outras, falava de Helen Adames Keller surda, muda e cega, que não se deixou abater pelas suas deficiências físicas. Repetia para seus aprendizes, ser ela símbolo da tenacidade em vencer todas aquelas dificuldades, tornando-se uma escritora consagrada, dominando inclusive uma dezena de idiomas. Falava de belos exemplos de vidas a serem seguidas pelos jovens.

A vontade de encontrar discípulos receptivos e a confiança que depositava nos seus alunos era proporcional à esperança de ver florescer em cada um mais um profundo depositário de conhecimentos que, no futuro, viessem trazer orgulho à sua terra que tanto amava sem reservas.

Naquele tempo, Possidônio Queiróz também manteve uma casa comercial pelo lado oeste do Mercado Público. Ali se estabelecia a primeira livraria da velha cidadela. Cadernos, canetas-tinteiro de marca Compactor, coleções de lápis de cor – tão raras naquela época – demais materiais escolares era a ocupação de Zé Barbosa, seu fiel comerciário. Os livros adotados, tais como os de matemática de Carlos Galante ou Ari Quintella, português da editora FTD e outros, cujos nomes a memória com o tempo já apagou, eram expostos em vitrines com portas de vidros – tal como as farmácias de ontem – tamanho era o respeito a eles dedicado. Como comerciante foi muito logrado, vendendo livros em confiança e, por educação, deixava de cobrar os maus pagadores. Talvez tenha sido essa a razão de sua desistência como livreiro.

O nome de Possidônio Queiróz era sempre o primeiro lembrado quando a cidade necessitava de uma personalidade para representá-la. Quantas ilustradas saudações ele pronunciou para preclaros visitantes. A platéia oeirense recebeu seus ensinamentos através das incontáveis conferências proferidas nos palcos, no Instituto Histórico de Oeiras, no jornal “O Cometa” e até em serviços radiofônicos. Os seus impecáveis discursos não serão mais ouvidos.

Toda Oeiras sente sua falta. Aquela reserva intelectual brilhante – disponível, ao alcance de todos – se foi.

Adeus senhor Possidônio.
Teresina, 26 de fevereiro de 1996





*Antônio Reinaldo Soares Filho é membro do Instituto Histórico de Oeiras

Artigo publicado na coluna opinião do Jornal O Dia em 26.02.1996.

sábado, 23 de maio de 2009

GOSTAVA MUITO DE PIMENTA

Sempre estava disposto a ensinar as crianças. Sempre!

Quando eu fazia o ginasial tinha uma colega e amiga, a Maura, que era sobrinha e uma espécie de filha adotiva do Professor Possidônio. Muitas vezes, como também éramos vizinhas, eu ia estudar na casa dela depois do almoço. Ele chegava para almoçar por volta das 13:30h e nos chamava para sentar à mesa: ao tempo que comia, nos ensinava português. Aliás, gostava muito de pimenta.

Rita (de Zé) Gomes

O GRANDE ANFITRIÃO

Índios no Piauí?
Dia de Feira. Três índios chegam a Oeiras.Vendo a multidão que os seguia, como se fossem extra-terrestres, Possidônio Queiroz vai imediatamente se entender com os índios que, finalmente, encontram quem lhes dê a atenção merecida. Possidônio leva-os para sua casa, tira da estante da sala uma garrafa de vinho (de caju?) sacode a poeira e festeja com os visitantes aquele encontro. Conhecedor da história do Piauí, Possidônio sabia que os índios piauienses eram um povo dizimado. E enquanto a cidade inteira via naqueles índios apenas o exótico, Possidônio via-os como visitantes especiais. Possidônio certamente identificou a origem daqueles índios, pois conversou longamente com eles antes de irem embora, naquele mesmo dia. Esse fato, que se passou na década de 60, serve para mostrar quem era Possidônio Queiroz".*

Rogério Newton

texto extraido da Revista Pulsar nº 1, mar/jun 1998

sexta-feira, 22 de maio de 2009

UM ESTADISTA!

Com Labanca , também chamado de "Andarilho Patriota".
Conversaram muito durante as várias passagens do forasteiro por Oeiras

Tempos atrás, no Café Oeiras, fui apresentado ao primeiro hippie que aportou na Velhacap ainda na década de 70. Jó, que na cidade tinha o apelido de Tromba, não me perguntem porque, ainda continuava na estrada e estava de passagem por Oeiras, novamente.

A cantora Vanda Queiroz, neta de Possi, ao rever a figura do Tromba, confessou a forte emocão de que foi tomada: a presença do hippie avivou sua memória de um passado distante – anos 70 – quando, aos seis anos de idade, presenciou altas conversas do Jó com Possidônio, o seu “vozinho” como ela, carinhosamente, o chamava. O Bruxo Velho que, na quente Oeiras, habitualmente usava terno e gravata; era amigo do Jó, o hippie, pois sabia conviver com, e respeitar, as diferenças. Perguntei ao Jó:

– Como você define Possidônio Queiroz?

–Seu Possidônio era um Estadista! respondeu, sem titubear, o velho hippie.

Joca Oeiras

Publicado originalmente no tabloide "O Estado do Piauí, o mais charmoso do Brasil, nº 3 -julho 2004"


UM SONETO PARA POSSIDÔNIO

Diz o ditado popular que cada louco tem sua mania. Os meus amigos mais próximos deveriam saber, portanto, que a minha, desde a tenra infância, é a de garimpar SONETOS. Sou capaz de trocar qualquer outro melhor prazer mundano, melhor na avaliação dos outros, pelo imensurável prazer que me dá a descoberta de um SONETO novo: é coisa de doido, mesmo!

Não é a minha proposta, aqui, porém, falar de mim. Fiz essa introdução apenas para que possam calcular, se esse cálculo for possível, do êxtase com que fui tomado, em janeiro último, quando do meu penúltimo dia de férias em nossa Oeiras.

A convite do querido Carlos Rubem, amigo meu maior de fé, e após a gentil autorização da família, pude visitar e bisbilhotar à vontade a biblioteca de Possidônio Queiroz. Frequenteia-a algumas poucas vezes quando o mestre ainda vivo, mas, talvez um tanto tímido pelo respeito que ele me inspirava, nunca tive a coragem de tocar em nada: ver e ouvir o professor me hipnotizava.

Naquele dia, porém, embora sentindo a presença espiritual de Possidônio (é impossível não sentir a presença dele quando estamos com um livro nas mãos, ainda mais com um livro já anteriormente tocado por suas mãos) procurei dar uma rápida, mas cuidadosa olhada em tudo. E a grande descoberta daquele dia passo a lhes contar agora. Calcule o prazer que ali senti com ela quem for capaz...

Sempre soube que o professor Possidônio e o meu tio, o poeta Luiz Lopes Sobrinho, por quem também nutro um enorme respeito e admiração, foram grandes amigos em vida. Homens ambos de cultura invejável, apaixonados pela arte do bem escrever, fico imaginando quão prazerosa essa amizade não deve de ter sido para os dois. Eu nunca seria capaz de imaginar, entretanto, que aquele dia me reservava descobrir uma prova real, e por escrito, da intimidade de suas almas...

Em oito de fevereiro de 1967, o poeta Luiz Lopes Sobrinho, ao presentear o amigo Possidônio com um exemplar do livro Caminheiros da Sensibilidade, de autoria de J Miguel de Matos, compôs em uma de suas páginas, e de improviso, o belíssimo soneto Oferecimento, o qual envio agora a todos vocês, talvez até em primeira mão, pois não sei se, desligados como são os poetas, o autor tenha se preocupado em tirar uma cópia dele para si, depois de compô-lo e enviá-lo ao dileto amigo.

É uma jóia rara, como rara era a amizade dos dois.
Alguém se habilita a mensurar o prazer que senti naquele dia? Um forte abraço a todos

Aécio Nordman


OFERECIMENTO (Improviso)
ao Caro Amigo Possidônio Queiroz

Tu, Possidônio, que tens alma pura,
A mente clara, espírito iluminado,
Recebe esta lembrança, tão do agrado
Do teu amor do belo e da cultura!

Eu creio que, depois da sepultura,
Um novo mundo há de ser encontrado;
Pois tudo que temos visto e temos amado,
Não poderá ficar na cova escura!

E, quando, um dia, em horas de tristezas,
Tu’alma se esvair nas incertezas
Dos mistérios da vida, em noites calmas,

Relê meus versos, neste livro amigo:
E, então verás que eu estarei contigo,
Na comunhão final das nossas almas!



Teresina, 8-2-1967


Luiz Lopes Sobrinho

publicado originalmente no tabloide "O Estado do Piaui nº3 - julho de 2004". edição comemorativa dos cem anos de nascimento de Possidônio Queiroz