Diz o ditado popular que cada louco tem sua mania. Os meus amigos mais próximos deveriam saber, portanto, que a minha, desde a tenra infância, é a de garimpar SONETOS. Sou capaz de trocar qualquer outro melhor prazer mundano, melhor na avaliação dos outros, pelo imensurável prazer que me dá a descoberta de um SONETO novo: é coisa de doido, mesmo!Não é a minha proposta, aqui, porém, falar de mim. Fiz essa introdução apenas para que possam calcular, se esse cálculo for possível, do êxtase com que fui tomado, em janeiro último, quando do meu penúltimo dia de férias em nossa Oeiras.
A convite do querido Carlos Rubem, amigo meu maior de fé, e após a gentil autorização da família, pude visitar e bisbilhotar à vontade a biblioteca de Possidônio Queiroz. Frequenteia-a algumas poucas vezes quando o mestre ainda vivo, mas, talvez um tanto tímido pelo respeito que ele me inspirava, nunca tive a coragem de tocar em nada: ver e ouvir o professor me hipnotizava.
Naquele dia, porém, embora sentindo a presença espiritual de Possidônio (é impossível não sentir a presença dele quando estamos com um livro nas mãos, ainda mais com um livro já anteriormente tocado por suas mãos) procurei dar uma rápida, mas cuidadosa olhada em tudo. E a grande descoberta daquele dia passo a lhes contar agora. Calcule o prazer que ali senti com ela quem for capaz...
Sempre soube que o professor Possidônio e o meu tio, o poeta Luiz Lopes Sobrinho, por quem também nutro um enorme respeito e admiração, foram grandes amigos em vida. Homens ambos de cultura invejável, apaixonados pela arte do bem escrever, fico imaginando quão prazerosa essa amizade não deve de ter sido para os dois. Eu nunca seria capaz de imaginar, entretanto, que aquele dia me reservava descobrir uma prova real, e por escrito, da intimidade de suas almas...
Em oito de fevereiro de 1967, o poeta Luiz Lopes Sobrinho, ao presentear o amigo Possidônio com um exemplar do livro Caminheiros da Sensibilidade, de autoria de J Miguel de Matos, compôs em uma de suas páginas, e de improviso, o belíssimo soneto Oferecimento, o qual envio agora a todos vocês, talvez até em primeira mão, pois não sei se, desligados como são os poetas, o autor tenha se preocupado em tirar uma cópia dele para si, depois de compô-lo e enviá-lo ao dileto amigo.
É uma jóia rara, como rara era a amizade dos dois.
Alguém se habilita a mensurar o prazer que senti naquele dia? Um forte abraço a todos
Alguém se habilita a mensurar o prazer que senti naquele dia? Um forte abraço a todos
Aécio Nordman
OFERECIMENTO (Improviso)
ao Caro Amigo Possidônio Queiroz
Tu, Possidônio, que tens alma pura,
A mente clara, espírito iluminado,
Recebe esta lembrança, tão do agrado
Do teu amor do belo e da cultura!
Eu creio que, depois da sepultura,
Um novo mundo há de ser encontrado;
Pois tudo que temos visto e temos amado,
Não poderá ficar na cova escura!
E, quando, um dia, em horas de tristezas,
Tu’alma se esvair nas incertezas
Dos mistérios da vida, em noites calmas,
Relê meus versos, neste livro amigo:
E, então verás que eu estarei contigo,
Na comunhão final das nossas almas!
OFERECIMENTO (Improviso)
ao Caro Amigo Possidônio Queiroz
Tu, Possidônio, que tens alma pura,
A mente clara, espírito iluminado,
Recebe esta lembrança, tão do agrado
Do teu amor do belo e da cultura!
Eu creio que, depois da sepultura,
Um novo mundo há de ser encontrado;
Pois tudo que temos visto e temos amado,
Não poderá ficar na cova escura!
E, quando, um dia, em horas de tristezas,
Tu’alma se esvair nas incertezas
Dos mistérios da vida, em noites calmas,
Relê meus versos, neste livro amigo:
E, então verás que eu estarei contigo,
Na comunhão final das nossas almas!
Teresina, 8-2-1967
Luiz Lopes Sobrinho
publicado originalmente no tabloide "O Estado do Piaui nº3 - julho de 2004". edição comemorativa dos cem anos de nascimento de Possidônio Queiroz
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