Fac-simile do 1º número de "O Cometa"A cidade de Oeiras teve no professor Possidônio Nunes de Queiróz um dos seus mais dedicados filhos. A história de Oeiras – e a do Piauí – não seria a mesma sem a presença do professor Possidônio. O seu amor incondicional pela cultura o fez resgatar páginas da história do Piauí. A sua preocupação com a juventude o levou para o Ginásio Municipal Oeirense, onde ensinou a língua pátria a várias gerações. A sua flauta mágica encantava seletas platéias expressando valsas da mais excelsa harmonia, produtos de sua própria criatividade. Compôs músicas para os hinos de Oeiras. Autodidata, exegeta dedicado a literatura clássica Greco - Romana, dominava a ciência do Direito. Homem de profunda convicção religiosa foi ardente defensor da criação da Diocese de Oeiras. Emprestou o seu conhecimento e se posicionava na linha de frente de luta pelas boas causas em defesa do patrimônio cultural, artístico e arquitetônico da primeira capital.
Antônio Reinaldo Soares Filho
Professor Possidônio
*Antônio Reinaldo Soares Filho
Oeiras despertou para 1996 sentindo a falta de seu filho Possidônio Nunes de Queiróz, que falecera aos 93 anos de idade. Para os que foram seus alunos no Ginásio Municipal de Oeiras entre 1961 e 1962 ficam a saudade e a dívida de gratidão, pelos ensinamentos da língua pátria que ele tão dedicadamente semeou.
O professor Possidônio se entregou com todas as suas forças àquela missão de mestre. Jamais tratou um discípulo seu com descortesia. Não fazia diferenciação entre os que pertenciam à classe privilegiada e os menos afortunados. Somente encontrava-se afável e condescendente, mesmo quando recebia incompreensões daqueles imaturos jovens, deslumbrados com o início de suas vidas. Ele também sabia esta verdade e perdoava sem deixar qualquer rancor. Suas aulas não eram apenas ensinamento de português, mas também lições de vida.
Seus ex-alunos se recordam das vezes que ficavam distraídos, sem prestar a devida atenção às aulas. Naqueles momentos, ele com paciência, gesticulando pausadamente para dar mais ênfase exclamava: “Oh! Jovens, observai o exemplo de nossos antigos sábios, estudai, aproveitai vosso tempo”. E ele buscava na arcaica Grécia, de séculos antes de Cristo, a sabedoria e os ensinamentos de Platão e de Sócrates que tão profundamente conhecia. Muitos de nós tomamos pela primeira vez conhecimento daqueles grandes clássicos através das admiráveis citações de seus feitos. Sempre cumpriu rigorosamente o horário de início das suas aulas, sem, contudo render-se ao sinal de encerramento. Às vezes divagava e passava a dissertar sobre filosofia, astronomia, botânica, música a até as matemáticas.
Em outras, falava de Helen Adames Keller surda, muda e cega, que não se deixou abater pelas suas deficiências físicas. Repetia para seus aprendizes, ser ela símbolo da tenacidade em vencer todas aquelas dificuldades, tornando-se uma escritora consagrada, dominando inclusive uma dezena de idiomas. Falava de belos exemplos de vidas a serem seguidas pelos jovens.
A vontade de encontrar discípulos receptivos e a confiança que depositava nos seus alunos era proporcional à esperança de ver florescer em cada um mais um profundo depositário de conhecimentos que, no futuro, viessem trazer orgulho à sua terra que tanto amava sem reservas.
Naquele tempo, Possidônio Queiróz também manteve uma casa comercial pelo lado oeste do Mercado Público. Ali se estabelecia a primeira livraria da velha cidadela. Cadernos, canetas-tinteiro de marca Compactor, coleções de lápis de cor – tão raras naquela época – demais materiais escolares era a ocupação de Zé Barbosa, seu fiel comerciário. Os livros adotados, tais como os de matemática de Carlos Galante ou Ari Quintella, português da editora FTD e outros, cujos nomes a memória com o tempo já apagou, eram expostos em vitrines com portas de vidros – tal como as farmácias de ontem – tamanho era o respeito a eles dedicado. Como comerciante foi muito logrado, vendendo livros em confiança e, por educação, deixava de cobrar os maus pagadores. Talvez tenha sido essa a razão de sua desistência como livreiro.
O nome de Possidônio Queiróz era sempre o primeiro lembrado quando a cidade necessitava de uma personalidade para representá-la. Quantas ilustradas saudações ele pronunciou para preclaros visitantes. A platéia oeirense recebeu seus ensinamentos através das incontáveis conferências proferidas nos palcos, no Instituto Histórico de Oeiras, no jornal “O Cometa” e até em serviços radiofônicos. Os seus impecáveis discursos não serão mais ouvidos.
Toda Oeiras sente sua falta. Aquela reserva intelectual brilhante – disponível, ao alcance de todos – se foi.
Adeus senhor Possidônio.
Teresina, 26 de fevereiro de 1996
*Antônio Reinaldo Soares Filho é membro do Instituto Histórico de Oeiras
Artigo publicado na coluna opinião do Jornal O Dia em 26.02.1996.
Artigo publicado na coluna opinião do Jornal O Dia em 26.02.1996.
Nenhum comentário:
Postar um comentário