sexta-feira, 26 de junho de 2009

A MOÇÃO DO DESEMBARGADOR

Cícero discursando no Senado

Prezadíssimos Pares e Senhor Procurador de Justiça:


Os segmentos representativos da comunidade piauiense estão terçando armas, buscando sensibilizar o Ministério da Cultura no sentido de se dignar em conceder justa e oportuna homenagem póstuma a Possidônio Nunes de Queiroz, oeirense de nascimento, musicista consagrado, intelectual e filólogo respeitado,outorgando-lhe a Medalha da Ordem do Mérito Cultural, instituída pela Presidência da República.

A homenagem fala por si mesma e estão a justificá-la a conduta retilínea do homenageado, a limpeza de suas metas e propósitos, a sua fina sensibilidade humana e formação de sábio e de santo, como disse o poeta e desembargador, Luís Lopes Sobrinho, ao tecer considerações sobre a sua rica personalidade.

O grande Marco Túlio Cícero, o mais perfeito modelo da eloqüência forense da latinidade clássica, procurando compensar sua origem plebéia, foi buscar na velha Grécia o veio inesgotável de sua sapiência proverbial. Em Atenas, freqüentou os cursos de Ascalão, Antíoco e Zenão. Depois, em Rhodes encontrou o seu grande mestre Possidônio de Apaméia. Com este gênio de origem síria, Cícero encerraria a sua formação clássica. Possidônio era estóico. Os estóicos ensinavam os homens a viverem na virtude, na recta ratio de Cícero, o único bem, por certo, a felicidade suprema, amável por si mesma e de si mesma prêmio.

Passados mais de vinte séculos, eis que surge outro Possidônio, o Nunes de Queiroz, também mestre ínclito de outros,que agora são mestres. O tutor das gerações inteligentes, durante quase um século. O guardião insone da nossa história, o advogado das nossas causas cívicas e culturais. O juiz retíssimo do nosso pundonor, do nosso bairrismo e da nossa hospitalidade. Porque, respeitando as raras exceções, o nosso Possidônio Nunes de Queiroz, foi o mais completo filho de Oeiras, essa terra bendita queo recebeu em seu ventre maternal e que era o único territóriosagrado do mundo que merecia a honra de guardar os seus veneráveis despojos.

Sei que foi recebido, ao falecer com noventa e dois anos de idade, no paraíso dos santos, dos sábios e dos heróis.Pelo que ele efetivamente é, para Oeiras e para o Piauí,musicista exímio e intelectual de reconhecidos méritos, sinto-me no dever de propor moção de apoio a este egrégio Plenário, após a manifestação do Ministério Público, e caso ela seja aprovada, que oficiemos ao dinâmico Ministério da Cultura, hoje dirigido pelo pulso firme e lúcido do Ministro João Luiz Silva Ferreira– o Juca Ferreira, externando a nossa manifestação.
Teresina, 17 de junho de 2009.
Des. Edvaldo Pereira de Moura

sábado, 20 de junho de 2009

POSSIDÔNIO NUNES DE QUEIROZ: O RELATO DE QUEM ESTEVE PERTO

Johann Strauss Jr.
Ao segurar no seu braço, apoiando-o pra levar ao banheiro, cozinha para almoçar ou jantar, ou até mesmo, na hora de ir dormir, lembro-me de umas coisas que achava esquisito! tinha por volta dos 8 a 10 anos de idade. Ao carregá- lo para um outro lugar ele começava: PA- PA- ra- ra- pa..., mexia as mãos com auxilio dos braços magros pra cima pra baixo e para os lados e eu, do lado, achando graça, sem saber o que era aquilo que ele cantarolava, e sem graça ao mesmo tempo, pois não sorria, voltava com ele para o velho sofá, onde permaneceu por bastante tempo sem poder enxergar. imagino hoje sua inquietude com tantas obras em mente como as do mestre Patappio Silva, Strauss. E as suas?: Valsa Nº 09 (Pagã) - dizem que a preferida dele ao invés da famosa Ceci Carmo – horas de Melancolia, Olha o Flautim (choro) e tantas outras comidas pelos papirófagos e pela memória dos músicos oeirenses que o acompanhou por tanto tempo. Mal sabia eu que com aquele meu sorriso sem graça me enganava perdido por ainda não saber que do meu lado estaria um Homem- referencia - elevado - gênio secular - sorte da seleção divina por ter parado em Oeiras tão próximo de nossa geração contemporânea.
Ah como eu sinto vontade de prosar meus centavos de conhecimento com aquele ser "esquecido" (Jose Expedito Rêgo), de soprar flauta pra ele ouvir, sorrir de mim e dizer: "muito bem 'jovem' você tem que estudar muito...", dar a felicidade de mais um graduado formar-me na área que ele tanto prezava com exatidão, até mesmo, cronológica e oficial .....ah se eu pudesse....

Rodrigo Queiroz

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Rodrigo Queiroz, bisneto de Possidônio, morou com ele na sua infância. Fortemente influenciado pela carismática figura do avô, escreveu sobre sua obra musical em monografia apresentada como TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Graduado em História, é proprietário, no Orkut, da comunidade "Possidônio, o inefável", de onde foi retirada essa crônica.


quarta-feira, 17 de junho de 2009

TEXTO DESAPARECIDO: UMA PENA!

Bernardete Maria e Niccolò Paganini (1782 - 1840)

O e-mail abaixo nos dá conta de que a Bernadete, escreveu um texto que foi extraviado (jamais chegou na minha caixa postal). Só pela palinha que ela deu falando nele, dá tristeza saber que sumiu.

De: Bernadete Maria de Andrade Ferraz
Assunto:Uma medalha para Possidônio Queiroz
Para: "Joca Oeiras"
Data: Sexta-feira, 12 de Junho de 2009, 18:28
Joca:
Suponho que fui uma das primeiras pessoas que atendeu ao seu chamado, sobre a campanha da Medalha da Ordem do Mérito Cultural, relacionada à indicação legítima e merecida do Professor Possidônio Nunes de Queiroz.

Lembro-me que meu texto dizia que a Loja do Professor Possidônio Queiroz foi a primeira Livraria que eu conheci e frequentei. Falei da atenção que ele me dispensava, cortezmente, dos papos emocionados sobre Beethoven, Paganini, Pixinguinha, e outros e outros... A minha adoslecência mereceu esse prêmio tão importante para minha curiosidade emocionada sobre os deuses distantes e tão próximos de minhas emoções. O Professor Possídônio era um mágico: fazia-nos ver, ouvir e sentir a energia de presenças encantadoras. Dando uma volta pelas esquinas daqueles tempos, vejo-o nitidamente e ouço sua verve indelével.

Bernadete Maria

No entanto, ainda não perdi as esperanças de convencê-la a reescrever!


sexta-feira, 12 de junho de 2009

NOSSO HOMEM NO MINC

Fred Maia e Ariano Suassuna
O Poeta e Arte Educador oeirense Fred Maia, atualmente exercendo um alto cargo na cúpula do Ministério da Cultura-MinC, manteve uma proveitosa e agradável conversa (MSN) comigo hoje de manhã, bem cedinho, antes do expediente no ministério.

Sendo o Fred um cara ocupadíssimo – além de tudo que faz habitualmente está viajando muito por ser encarregado, hoje, de coordenar os Debates Públicos em nível nacional sobre as modificações na Lei Rouanet – e como a conversa, como eu disse, foi muito interessante e proveitosa, propus a ele publicá-la após edição, no que aquiesceu. Ela começou assim:


– Oi Joca! Acabei de fazer uma boa leitura no Blog. Acho que vocês conseguiram juntar material suficiente para mostrar a importância do Prof. Possidônio Queiroz. São fragmentos que remontam a sua vida, obra, pensamento.

Achei maravilhoso o texto sobre a importância da arte e sua relação com a educação.Revela o conhecimento da literatura e das artes em geral, cita autores, pintores etc.

O texto, no qual se nega a defender um vereador acusado de ser o mandante de um assassinato é de uma força impressionante e, por tudo isso , creio que vocês fizeram o certo ao indicá-lo como humanista;

Seja como for, as suas músicas, também, estão lá e, além de serem lindas, demonstram a capacidade que ele tinha de transitar em várias disciplinas e de produzir arte, conhecimento e humanismo.

Lamento não ter escrito nenhum pequeno texto, para ajudar nesse processo, mas, realmente, minha vida anda atribulada e tomada de trabalho, compromissos e responsabilidades.

Creio que, baseado na apresentação/indicação que vocês fizeram, poderei corroborar, indicando-o também, com servidor da casa. Até porque, com as dificuldades citadas acima, não indiquei ninguém até agora. Então, pode ter certeza, farei a defesa da indicação pois posso afirmar que o Prof.Possidônio Queiroz merece todos as láureas que esse País possa conceder. Talvez, nenhum outro homem, no século XX, tenha vivido a vida com tanta humildade e sabedoria, tenha sido tão importante. Um homem pobre de recursos materiais, com quase nenhuma formação escolar mas com um enorme apetite intelectual.

Leu tudo: os clássicos gregos, a literatura universal e contemporânea e discutia arte, jurisprudência e ciência sem sair da sua Vila do Mocha, uma cidade que não será nunca esquecida, porque teve nele um iluminista, que a conservou em versos e partituras luminares.

Possi, além de genial, era bom! tinha a virtude da bondade - dom cada vez mais raro entre os seres humanos.

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É, como vocês podem ver, não se tratou, propriamente, de um diálogo, mas de um monólogo extremamente estimulante para a nossa causa. Falei conversa porque, embora vocês não tenham ouvido, nem ele, eu estava aqui, do outro lado, batendo palmas! Clap! Clap! Clap!

Viva Possi!

REPERCUSSÕES DA CAMPANHA

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Mesmo após consumada a indicação, a Campanha ainda repercute:

"Para nós, é motivo de muita honra apoiar a indicação do saudoso Prof. Possidônio Queirós à recepção da Medalha de Mérito Cultural reconhecendo-lhe o merecimento ainda que postumamente. Tivemos a grata satisfação de privar do convívio deste cidadão a quem consideramos , acima de tudo, um amigo. Admiramos em vida e continuamos a admirar a sua vasta e belíssima obra musical tanto que, reconhecendo-lhe a arte e o mérito, a Fundação a que presidimos (Fundação D.Edilberto Dinkelborg) escolheu dar o seu nome à Escola de Música situada na antiga Cadeia Pública de Oeiras. Conferir-lhe esta honraria significa reconhecer perante a sociedade não apenas o seu talento musical como também apresenta-lhe às novas gerações como cidadão honrado que foi, afeito ao trabalho, inclusive como homem das leis, e ao estudo numa época de poucas oportunidades e marcada pelo peconceito o que, aliás, infelizmente, mudou muito pouco. Trata-se também de reconhecer nele e na sua obra, a vocação musical de nossa terra onde temos muitos artistas ilustre; significa, também, despertar nos jovens o desejo de ultrapassar todas as barreiras que lhe são impostas e para tornarem-se cidadão dignos de sua terra; significa, enfim, apresentar aos jovens caminhos de desenvolver talentos em todas as áreas para não ficarem expostos ao vício e à violência, lembrando que a arte humaniza e desprerta sensibilidade. Parabenizamos a Fundação Nogueira Tapety por este gesto e deixamos aqui a expressão de nossa homenagem de apreço e gratidão ao Amido e Mestre Prof. Possidônio Queirós."

Pe. João de Deus de Carvalho Leal


"Cumprimento todos os apoiadores da lembrança, do respeito e do reconhecimento pelo significado social e cultural que o Professor Possidônio Queiroz significa para Oeiras e mais que suas fronteiras. A Medalha da OMC é bem quem o procura para tornar-se mais distinta ainda. Sua lembrança, de modo geral, merece esse gesto simbólico, porém eterno, como sua lembrança e obra.
Abraços"


Bernadete Ferraz


"Caro Joca Oeiras:

Recebi o texto que o amigo gentilmente me enviou, por e-mail.Desejo que você acolha, ao lado dos demais parceiros nessa importante empreitada cultura, os meus aplausos e as minhas felicitações pela iniciativa a proposta encaminhada ao MinC para a justíssima homenagem que a Fundação Nogueira Tapety pretende prestar à memória de Possidônio Queiroz, justificada da maneira mais irretocável possível.Fraternalmente,"

Theddy Ribeiro


"Excelente e merecidíssima campanha . O professor Possidônio é o suprassumo da cultura Oeirense, quiça do Piauí,especialmente no que diz respeito à música. Só me diga como faço para conseguir um CD com as belas valsas do mestre."

Edson Rogério


"Joca, que bela justificativa!

Não que eu seja assim... bairrista, porém não acredito que a história e as histórias de Possidônio não convençam ao juri do merecimento pela medalha. Pois pra mim, conhecer as faces de Possidônio Queiroz é encontrar o Mundo num pedacinho da Terra(Oeiras), é libertar sentimentos tão secretamente trancados, é encantar-se por completo sem a varinha de condão, pois Possi é a essência de Oeiras, portanto, uma amostra do mundo! Basta conhecê-lo através dos seus feitos e façanhas. Espero que consigamos mais essa vitória.
Estou torcendo pelo sucesso.
Abraços,"

Maria do Socooro Barros

quarta-feira, 10 de junho de 2009

UMA VISITA OPORTUNA

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Na tarde de ontem, terça-feira, 9 de junho de 2009, recebemos, na sede da FNT, uma não apenas ilustre e simpática mas também oportuna visita. O Pastor Francisco de Assis Ribeiro de Queiroz, hoje exercendo o Ministério Pastoral no município de Água Branca-PI, filho caçula do Professor Possidônio Queiroz veio nos visitar e congratular-se conosco pela campanha na qual, durante o último mês, estivemos envolvidos. A propósito, faremos hoje, 10 de junho, a indicação para que ele (in memóriam) receba a medalha da Ordem do Mérito Cultural.

Um Parêntese: Após a visita, conversando com o Carlos Rubem, chegamos à conclusão de que a presença do pastor Chico Queiroz na FNT, tanto a mim quanto a ele, nos fez muito bem. Pudemos sentir um sadio orgulho do que estamos fazendo. Fecha Parêntese.

Eu ainda não havia notado tanta semelhança física entre ambos, pai e filho. O Chico Queiroz, além do excelente astral que transmite, não economiza conversa sobre o pai. Contou, por exemplo, que, certa vez, Possidônio presidia a mesa de uma solenidade no Cine Teatro Oeiras quando nele adentrou o Pastor Robert Tlotson. Imediatamente o presidente declinou o nome do pastor para compor a mesa. Monsenhor Leopoldo, que já ocupava um lugar ali, ameaçou levantar-se pois, segundo alegou, não se sentia bem na mesma mesa que um Protestante. Ante a ameaça, Possi contra-atacou: “se o Caríssimo abandonar a mesa vou tornar pública esta sua justificativa. O Monsenhor pensou bem, e não completou a mal-criação que ensaiava. Chico contou, também, que seu pai teve, certa vez, a morte contratada mas o atirador arrependeu-se na última hora. Anos depois, este mesmo que ia matá-lo, Possidônio hospedou em sua casa. Outra coisa curiosa que contou, um tanto magoado, foi que, a famosa Flauta de Prata de Possi, aquela referida na belíssima “Carta ao Filho” nunca chegou às suas mãos, estando, até hoje, de posse da cunhada, viúva de Raimundo Queiroz. Apreciou bastante o nosso blog de campanha. Será o representante da família Queiroz caso a mesma consiga emplacar. Vitoriosa ela já se encontra!
Joca Oeiras

terça-feira, 9 de junho de 2009

NADA MENOS QUE A VERDADE!

Jesus Elias Tajra


Oeiras, 15 de agosto de 1990

Exmo. Sr.
Deputado Federal Jesus Elias Tajra

Em meu poder a carta do ilustre e prezado Coestaduano amigo, em que me comunica ser candidato à reeleição à Câmara Federal e desejaria receber o meu voto.

Fala dos trabalhos desenvolvidos no Parlamento, e apresenta o rol das lutas por que se baterá, em número de seis, todas admiravelmente nobres: - pela moralidade administrativa publica; melhoria do sistema educacional; por melhor saúde em nosso Estado; melhor segurança para a população; salário digno e justo para o funcionalismo e por maior e atenção do Governo Federal para o Piauí. Um programa que nada deixa a desejar.

Os que acompanham a vida dos nossos homens públicos conhecem o que muito tem feito o Egrégio Deputado. Homens como V. Exa. honram e enobrecem a nossa representação na Câmara Baixa do País.

No regime democrático, o único que é compatível com dignidade humana (infelizmente no Brasil apenas um ensaio), temos os eleitores compromissos que se tornam, às vezes, inalienáveis. Isso leva-nos a, embora reconhecendo no candidato qualidades meritórias, a agradecer, como agradeço, a delicadeza da comunicação, mas a ser obrigado a declarar, respeitosa e amistosamente, que já tem velho compromisso que desejo cumprir.

Fazendo votos porque tenha mais uma vez assento entre os nosso representantes federais, subscrevo-me.

cordialmente

Possidônio Nunes de Queiroz

ARTE & EDUCAÇÃO

M.C. Escher (1898-1972) clique na imagem para ampliar
O texto, abaixo transcrito, foi redigido, mas não assinado, pelo professor Possidônio Queiroz. Ele o cometeu – como era useiro e vezeiro em fazer, inclusive, discursos para políticos – em 1977, atendendo ao pedido de uma equipe de alunas da Escola Normal de Oeiras que participavam de uma Gincana Escolar.

Todo homem nasce com possibilidade que se desenvolvem aos poucos, durante toda a sua vida. Possibilidades essas que se aferem pela inclinação para o campo das letras, das matemáticas, da música, das artes.

As artes, excluindo, talvez, a ciência das matemáticas, englobam em si o exercício ou o desenvolvimento das letras, das boas letras, em que se deve com muita propriedade, ver a poesia, a forma mais alta do beletrismo; – a música. Tudo isso pertence à arte, ou às artes.

O escrever é arte, e arte no seu mais excelso significado. Uma página de Rui, de Alexandre Herculano, de Euclides da Cunha, e outros que tais, é arte, e arte pura.

Um poema de Bilac (“O Caçador de Esmeralda”), ou de Menoti del Picchia (“Juca Mulato”), “Os Lusíadas”, o “I-Juca-Pirama”, é arte na expressão mais pura da palavra. Ninguém pode lê-los sem sentir na alma forte emoção, suscitada pelo belo que esses poemas despertam.

Acreditamos que a arte ajuda o homem a crescer sempre, tornando-o mais humano. Isso porque a arte dá ao individuo uma visão universal, identificando-o com o que há de maior e de melhor na face da terra. Ainda quando exercite ou desenvolva um tema de ordem pessoal, um tema de caráter ambiental, a sua inteligência, a do artista, o projeto para além do seu meio; daí que a sua arte quando conhecida alhures, até mesmo em latitudes opostas do globo, encanta e comove.

A arte tem predomínio sobre todas as almas. E isso em qualquer das suas manifestações, a arte da dança, por exemplo, atrai e encanta. Os antigos tinham razão, quando na sua estesia pelo sentimento do belo, criaram entre as musas eleitas para as diversas representações da Arte, a figura de Perpsicore, para a deusa da dança. Sim, por que a dança também é arte. Modernamente os ballets formados nas academias de canto e dança, sacodem as platéias cultas com exibição de arte pura no campo do ritmo coreográfico.

Há quem afirme que hoje a arte assume grande importância dentro do processo educativo. Cremos que em todos os tempos andaram os homens preocupados com a criatividade, através da arte. Daí os gênios que as Enciclopédias nos apontam, quer na literatura, quer na poética, quer na estatuária, na pintura, ou na música. E isso, na antiguidade, como nos tempos modernos. Artistas insígnes, que suando, sofrendo em sua luta interior para atingir a expressão da arte que os afligia, a ânsia do belo que os martirizava, lançaram para o mundo, um universo de belezas, que são estudadas e admiradas hoje, como serão sempre.

Nas obras de arte, encontra-se, todos sabem, uma mensagem para os que podem admirá-las e interpretá-las. É certo, que para muitos não tem sentido, uma estrofe de Wagner, um interlúdio de Mozart, uma quadra dolorosa de Camões, porque é preciso ter alma de artista, senso do belo para amar e entender a arte.

Aqueles a quem a natureza dotou de inteligência e clara compreensão, esse podem verbalizar, a contento, isto é, podem explicar emocionalmente, o sentido de uma balada wagneriana, a beleza sem para da Vênus de Milo, o sorriso enigmático de La Gioconda.

Pela educação, pelo aprimoramento do espírito, através do estudo, em que se desenvolvem as potencialidades do individuo, tanto da criança como do adulto, se prepara a criatura para a percepção das coisas no mundo da arte.

A arte é importante na educação. Desenvolve a criatividade e dá a criatura alto senso de humanismo, tornado-se um elemento de prol na comunidade em que vive. Nesse sentido é preciso entender-se educação não apenas como instrução. Há dissemelhança entre uma e outra. A instrução pode dar cultura, mas pode fazer também violentos, desumanos. A educação se dirige sempre a formação do homem bom, do homem cristão, do fraternalismo.

A arte dá a criatura uma visão do belo, tornando o homem mais humano, mais sensível para com o bem dos outros homens. Os antigos viam no estudo da música uma forma de tornar melhores os seres humanos.

A criatividade do homem culto, do que atingiu alto nível cientifico, se dirige, muita vez, para os inventos de morte, de aniquilamento. São os inventos infernais, é a bomba atômica e outros semelhantes, capazes de destruir a humanidade num átimo de tempo.

Contrariamente a isso, a criatividade nascida do cérebro do artista, tem sempre um sentido que se pode dizer nobre, porque vazado no campo do belo, traduzindo uma alta e verdadeira mensagem emocional, que desperta nos corações, admiração e o amor.

A educação artística é necessária, altamente necessária. Desperta o amor pela criatividade e pode dar a criatura um sentido de vivência mais humana, consoante os moldes dos ensinamentos messiânicos.

Num mundo atribulado como o em que vivemos, em que a violência se desenvolve a cada momento; em que o crime se estadeia assim, como uma forma de vida elogiável; em que a vida da criatura já vai perdendo o valor; – num mundo assim, é bom que as instituições culturais se voltem para o ensino, para o cultivo das artes, como uma forma de melhoramento da alma humana, como um meio de dar ao homem um modelar sentido fraterno de sua vivencia com os outros, a fim de que possamos, dentro de algum tempo, de um futuro não muito longínquo, riscarmos da literatura aquela frase de Henry Thomas: – “O homem é um aluno terrivelmente atrasado na escola da vida”. Sim, a fim de que possamos aprender a viver.

A arte é uma forma de melhoria da criatura. Será uma utopia pensar em um mundo sem atritos, sem maus, sem guerras. Mas, é dever de cada um, pensar em um mundo melhor. A criatividade artística, alheará da mente humana a criatividade bélica.
(Possidônio Queiroz)

PELA JUSTIÇA E PELA VERDADE

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Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da Comarca de Oeiras

Há dois meses, mais ou menos, foi a nossa Oeiras sacudida com a notícia de um crime que a abalou profundamente, pela maneira fria como se executara.

Pistoleiros assoldadados pelo Sr. Vereador José Barbosa de Miranda e seu genitor Elói Barbosa de Miranda, mataram um cidadão em condições que, à vítima, não se lhe permitiu esboçar o menor gesto de defesa, abrir, sequer a boca. Apesar de me dar com o Vereador, lastimando o fato, condenei o crime, que me horrorizou.

Agora, deseja V. Exa. nomear-me defensor dativo dos criminosos. Servidor incondicional da Justiça, aqui, há mais de onze (11) lustros, desejo, no entanto, pedir a V. Exa. que me exima da obrigação de aceitar a defesa em tela.

Conheço que os criminosos, maior que seja o grau de repulsa, a que a sociedade os condene, merecem ter quem os defenda. O choque sentido com a execução fria do crime, e a idade, que já beira os oitenta e um (81) anos, me privam de maiores esforços.

Depois, não estando os criminosos foragidos, e sendo homens de recursos – prova a quantia elevada que pagaram aos pistoleiros para a prática do delito – e ainda, o fato de haverem contratado um dos advogados notáveis de Teresina, para lhes vir requer “Habeas Corpus”, tudo isso, como é lógico, faz saltar aos olhos, que os mesmos delinqüentes, proprietários e criadores, bem podem constituir advogado de seu agrado.

Espero que os argumentos atrás enfileirados, levem o conspícuo Juiz a exculpar-me do ônus da defesa criminal de que trato.

A saúde, que antes me parecia bem segura, já a sinto, injuriada pelos muitos anos sem descanso, abalada, o que me tira,, às vezes, o ânimo par certos trabalhos.

Termos em que
P. deferimento.

Oeiras, 13 de dezembro de 1984


Possidônio Nunes de Queiroz ( Provisionado)


Atenção: O Juiz a quem Possidônio Queiroz dirigiu a petição em comento é, atualmente, o Desembargador Edvaldo Moura.

O MAIOR MILAGRE DO MUNDO

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Oeiras, 29. 10. 83
Prof. Possidônio
Ouvi o seu programa “Memórias de Oeiras”. Não fiquei surpreso com a qualidade e profundidade do texto que foi lido sobre a luta pela conservação do nome de Oeiras. Com sua voz característica, com sua linguagem impecável e clássica e, acima de tudo, com sua formação autodidática, estive pensando que o senhor se confunde e identifica muito com o personagem de OG Mandino, do famoso livro “O Maior Milagre do Mundo”!
Sebastião Martins
Promotor de Justiça da Comarca de Oeiras em 1983, O Dr. Sebastião Martins é hoje Desembargador do Egrégio Tribunal de Justiça do Piauí

segunda-feira, 8 de junho de 2009

GRANDE MÚSICO OU SÁBIO HUMANISTA

No dia 12 próximo encerra-se o prazo para indicações à Medalha da Ordem do Mérito Cultural. Espero que não, mas talvez tenhamos de optar entre indicar o professor Possidônio como Compositor ou como um intelectual humanista. Questionada, a comissão encarregada de dirimir dúvidas esquivou-se, responsabilizando-nos pela escolha:– “quem indica é que deve saber!”, foi o que disseram, não sem razão.

Seja como for resolvida a questão, porque pressinto que não haverá unanimidade nas opiniões, quero adiantar a minha: sem desdouro nenhum para a sua importante obra musical; penso que o que torna excelsa a sua figura são estes predicados muito bem assinalados pelo seu velho amigo, o poeta Luiz Lopes Sobrinho, isto de ter sido a um tempo Sábio e Santo, na carcaça de um cidadão comum, na feliz expressão do Professor Cineas Santos.

Sei, perfeitamente, que se for indicado como músico não fará nenhum fiasco mas lembro que há inúmeros compositores falecidos cujas músicas influenciaram toda uma geração e já fazem parte do nosso mais legítimo patrimônio cultural, pessoas que, com suas composições, marcaram a vida de inúmeras pessoas por este Brasil afora. Teriam, as pouco conhecidas belas valsas do Professor Possidônio o condão de fazer penderem para o seu lado as preferências dos jurados? Para ser sincero eu não apostaria um centavo nessa zebra.

De outra parte, num país, como o nosso, onde a taxa de moralidade pública e privada desceu a níveis rasteiros, um país que fabrica, aos montes, universitários semi-alfabetizados, a figura impoluta e inatacável do Professor Possidônio Queiroz - negro,autodidata, baixinho, feio nas suas orelhas de abano - cujos “... atos e os fatos mais notáveis da caminhada”..., “foram, a bem da verdade, sua inquestionável solidariedade, fraternidade e amor ao próximo, mercê de sua humildade, lealdade, sinceridade e seu estado permanente e lúcido em lidar com o perfeccionismo, tendo como lema máximo, a verdade, fonte de toda sua invulgar sapiência” (dei a palavra a Francisco Pereira Ferraz), tem, certamente, todas a condições de influenciar o juri favoravelmente, ainda mais diante da campanha
que nós fizemos, mobilizando seus fieis admiradores e demonstrando, de todas as maneiras, a retidão do caráter e o profundo humanismo do Bruxo velho de Oeiras. E suas Valsas Piauienses entram como um precioso dote, podendo constituir-se num comprovante sonoro da sua genialidade.
Joca Oeiras

domingo, 7 de junho de 2009

DESAFIO VENCIDO!

A gravação deste CD representou, para os músicos da Orquestra de Câmara de Teresina Concertante, um grande desafio, teoricamente previsível, porém quase irrealizável, na hora de colocá-lo em prática, no estúdio de gravação , diante da precariedade geral que nos cerca.

Alguns defeitos técnico-musicais de interpretação das valsas, tais como mudanças de andamentos, fermatas, ataques precisos ou cortes, só poderiam ser melhorados se gravados em forma de recital (ao vivo) ou no estúdio, se todos os músicos gravassem juntos, obedecendo a interpretação do regente. Além disso, tivemos que nos curvar à necessidade brutal de acomodar 11 valsas, cada uma com seu andamento expressivo próprio (lento ou rápido) em um único CD. Resultado: alguns andamentos não deveriam ser tão rápidos, e outros, deveriam ser mais lentos.

Se, para qualquer músico experiente, já é difícil gravar este gênero musical apenas com fones de ouvido, imaginem para alunos inexperientes.

Por isso é que nos obrigamos a reduzir o efetivo da Orquestra Concertante de onze para um sexteto. Moldamo-nos ás condições técnicas de gravação existentes em Teresina

Além do mais, ao fazermos esta opção, levamos em conta, principalmente, as horas contratadas, ou seja, com a Orquestra completa (onze músicos) seriam necessárias muitas mais horas de estúdio, algo financeiramente impossível de se equacionar.

Quanto aos nossos jovens músicos de sopro, fizeram o máximo possível, ao usarem instrumentos emprestados, sem manutenção adequada (sendo uma das flautas até obsoleta) que dificultava o amalgamamento do naipe e a afinação. Passo a Passo conseguimos superar esses e aqueles obstáculos, deixando à mostra um produto final, as “valsa Piauienses de Possidônio Nunes Queiroz” como marco definitico de um est´agio musical validamente atingido no Piauí.”
Emmanuel Coelho Maciel

Transcrito do encarte do CD “Valsas Piauiense”

sexta-feira, 5 de junho de 2009

POSSIDÔNIO MERECE MUITO MAIS!

Dr. José Expedito Rêgo

Floriano, 13 de julho de 1992


Meu caro Professor Possidônio Queiroz:

Li com atenção a monografia do maestro Emmanuel. Acho que ele disse pouco a seu respeito; você merece muito mais.

Quanto à nota sobre o meu nome, basta dizer que JER nasceu na Rua do Fogo, em Oeiras, Piauí, no dia 1º de junho de 1928. é médico obstetra e escreveu letras de hinos, crônicas e dois romances, Né de Sousa e Malhadinha, bem aceitos pela crítica regional.

Lembrando a observação “proposital” de Bio, em nosso último encontro, peço que vá desculpando as minhas falhas. Jamais procurei seguir os ensinamentos de Rui. Prefiro os de Raquel de Queiroz que defende o uso da língua escrita o mais próximo possível da falada. Ela incentiva, por exemplo, o emprego do verbo “ter” de forma impessoal, no lugar de haver : “Hoje não tem aulas”. Carlos Drumond de Andrade, em um de seus famosos poemas, também escreveu: “No meio do caminho tinha uma pedra”.

Tenho aqui duas edições do Aurélio, uma de 1960 e outra de 1986. Ambas registram “proposital” e “propositado”. E nem sequer o grande mestre faz alguma restrição ao uso do primeiro vocábulo, condenando-o por desuso ou má formação

Procuro escrever certo, mas sei que estou longe de atingir a perfeição do mestre Possidônio. Por isso mesmo é que eu venho sempre resistindo aos repetidos convites que Dagoberto me tem feito, para que me candidate a uma vaga na APL. Sei que não sou digno.

Receba o abraço do seu amigo e grande admirador



José Expedito Rego

quinta-feira, 4 de junho de 2009

GALERIA DOS INESQUECÍÌVEIS

Possidônio Queiroz e Netinho da Flauta
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A INILUDÍVEL VELHICE

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POSSIDÔNIO:ODE À ESPERANÇA

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A crônica acima, de autoria do Professor Possidônio Nunes de Queiroz, foi publicada no jornal O DIA em primeiro de janeiro de 1992. A foto a ela aposta, tem função meramente ilustrativa, isto é, não se trata do Cartão Postal referido por Possidônio na supradita peça literária.

terça-feira, 2 de junho de 2009

CONSIDERO UM GRANDE PRIVILÉGIO TER SIDO SUA COLEGA DE TRABALHO

Depoimento sobre professor Possidônio Queiroz.

Eu ainda cursava o 3° ano pedagógico, quando iniciei no serviço público, trabalhando na Secretaria da Câmara Municipal ao lado do caríssimo Professor Pôssidonio Queiroz. Foi um período marcante na minha juventude, convivendo com funcionários mais velhos, experientes e atenciosos.

Ainda vive na minha memória, a presença do Professor Possidônio, na Prefeitura, de terno, atencioso, bem humorado, falante e sempre pronto para servir. Com ele aprendi muitas coisas e as “regras do bem viver”, como dizia a minha mãe, Bembém.

Constantemente estava ele a me falar de poetas, intelectuais, vidas de santos e sobretudo do “seu mestre” Rui Barbosa. Discorria sobre textos, regras de gramática além da “Réplica”, “Tréplica”, acórdãos, jurisprudência, assuntos que eu não entendia e tão pouco me interessava.

Porém, quando Possi me falava de fatos e pessoas do passado da “Velha Urbe”, aí sim, eu queria saber de tudo e o crivava de perguntas. Nas suas respostas, o professor era muito prolixo, mostrava bibliografia e algumas vezes, chegava a desconcentrar seu interlocutor, especialmente quando este era jovem ou inculto. O professor sempre estava disponível. Fosse na repartição, em casa, na rua ou no seu escritório, orientava os colegas, os novos advogados, estudantes, professores ou até mesmo algum curioso, doido ou desocupado, que o procurasse. Alguém chegou apelidá-lo de “Enciclopédia Ambulante”.

O seu respeito e carinho por crianças, era impressionante. Deixava de lado qualquer trabalho, pesquisa ou processo para ouvi-las e atendê-las. Sempre as crianças saiam alegres, felizes e ele retornava ao trabalho cantarolando.

O Professor Possidônio Queiroz foi um grande humanista, cidadão crítico e consciente, educado, defensor da nossa comunidade e acima de tudo um bom amigo, daqueles que o evangelho chama de “tesouro”. A disponibilidade em servir o próximo, pontuou sua vida até os últimos instantes.

Todos sabemos de suas qualidades e méritos como beletrista, rábula; autodidata, músico, compositor, historiador e professor. A campanha da FNT visando o reconhecimento nacional de sua memória, consubstanciada na outorga da láurea “Ordem do Mérito Cultural”, a par de ser de integral justiça,constituir-se-á, especialmente para as novas gerações, num exemplo de superação, dedicação ao estudo e crença nos valores éticos e morais.

Rita de Cássia Campos.

OEIRAS E POSSIDÔNIO: AMADA E AMANTE DE AMOR ETERNO

ph: Cândido Neto
Na Academia Piauiense de Letras possuo o meu voto. Nunca pedi que meus colegas acadêmicos me concedessem o voto que lhes pertence para eleição de candidatos de minha simpatia, pois se assim fosse Possidônio Queiroz já estaria sentado numa poltrona da casa de Lucídio Freitas, por incontestável merecimento. Humilde, simples, bondoso, amigo leal e sincero, correto nas atitudes, tem memória privilegiada, conhecimento profundo da História do Piauí e de sua antiga capital, Oeiras, riquíssima de tradições e de grandezas cívicas. Possidônio e Oeiras se confundem, fraternos, amada e amante de amor eterno. Raros no Piauí escrevem como Possidônio, linguagem escorreita, na usança do português popular ou da língua clássica quando quer, e num e noutro tem o respeito dos mestres como ele.

Gosto de Possidônio, consultório da gente de Oeiras. Venero-o. Colocou a cultura intelectual a serviço dos sentimentos de sua pátria maior, Oeiras, cuja glória abastece o Piauí sem memória e Teresina mutiladade ambições nefastas.

Casualmente folheio um jornalzinho antigo de Oeiras e me deparo com um trabalho de Possidônio, uma crônica, gênero difícil que ele domina facilmente. Homenageio-o, transcrevendo-a. Leiam-na. Curiosa concepção popular, como tudo o que presta, intitulada O Homem que dava Leite.

"Parece que ainda estou a ver. Estatura mediana, gordo, por isso mesmo parecendo mais baixo, xingador, amante de uma boa pinga, palavroso, quase valente, festeiro, vaqueiro hábil e corajoso.

Há quarenta anos, todo mundo o conhecia em Oeiras. Residente no interior do município, no lugar Malhada Real, a poucas léguas da sede, vinha constantemente à cidade. Aqui privava com as pessoas mais categorizadas. Muitos gostavam de ouvi-lo, porque a conversa entremeada de palavras menos doces, de constantes invocações ao Diabo e de pilhérias salgadas, despertavam gargalhadas estrepitosas.

Raimundo Figueiredo nunca vinha à cidade sem paletó. A camisa, porém, lhe aparecia por baixo do paletó, na frente e atrás, porque a trazia sempre por fora das calças. Isto lhe dava um aspecto bizarro.

Quando moço foi acometido de pertinaz moléstia, que, por pouco o não levou à sepultura. Permaneceu em estado de coma por vários dias. Restabelecido, contava, grave, sentencioso, que estivera no inferno e que lá vira muita gente conhecida, cujos nomes declinava. Desde então, tornou-se famigerado praguejador, vomitando injúrias, a cada momento.

O que vai dito bastava par a definição do homem que veio do “outro mundo”, sobremodo amigo do Tinhoso, amigo de tal forma que não lhe podia nunca tirar o nome da boca. Entretanto, não é sob este aspecto, que lhe queremos focalizar a personalidade. O que vamos dizer de Raimundo Figueiredo, é que ele era um homem que dava leite, e dava muito leite.

Gostava de dizer, de afirmar essa faculdade que possuía, que, de certa forma, o colocava acima dos outros homens, que não sabiam dar leite. E não admitia que ninguém lhe duvidasse da assertiva. A mais de uma pessoa, por duvidar do que ele dizia, sujou a cara e a roupa de leite. Era desacreditá-lo, e ele, num movimento rápido, sacava de sob as vestes um peito enorme, referto do líquido branco, e, sem mais demora, mandava contra o incrédulo um forte esguicho que o molhava todo.

Raimundo Figueiredo amamentou a mais de um filho. Não gostava de ouvir choro de criança. Por isso, quando a mulher saía para lavar roupa e a criança tinha fome, ele acalentava o filho pequeno, dando-lhe o peito a mamar. Daí lhe adveio o criar leite, e muito leite. Cabra macho, não ajeitava contenda.

Ginecomasto, na expressão da palavra, possuía mamas enormes. Neste particular, poucas mulheres lhe levam a palma. Podia tirar, dos grandes peitos, sempre refertos, como costumava afirmar, copos de leite. Isso, eu o ouvi dizer de mais de uma vez.

Gostava muito de sambar, de comandar as danças nos folguedos roceiros. Nas festas de casamento, nunca deixava de pronunciar discursos bombásticos, geralmente muito aplaudido.

Era perdido por mulheres. Casado, tinha cinco ou seis filhos do matrimônio e vários de contrabando. Se fosse vivo estaria escandalizado por ver tantos homens operando-se, no desejo insólito de se transformarem em mulheres. Não fez nenhuma operação. E, no entanto, tinha seios enormes e amamentou crianças. Cousas da vida! "

Esta crônica de Possidônio Queiroz foi publicada, pela primeira vez, no jornal O Vírus, 1º/FEV/1977 – Oeiras - PI
Arimathea Tito Filho (in memoriam)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

UM GRANDE BRASILEIRO!

De: Marcos Miranda souza.miranda@xxxx.com.br
Assunto: Res: Re: Res: Uma Medalha para Possidônio Queiroz
Para: "Joca Oeiras" jocaoeiras@yahoo.com.br
Data: Domingo, 31 de Maio de 2009, 19:36
Caro Joca,
Parabéns pelo trabalho em prol do resgate e promoção da memória do Professor Possidônio Queiroz.
Adiro à manifestação de reconhecimento pelo trabalho desse grande brasileiro.
Fraternal abraço,
Marcos Miranda

POSSI: A BORRACHA DO TEMPO NÃO CONSEGUE APAGAR

Quem disse que o velho Possi, de sons doces e transcendentes desapareceu?
Não. Possi está vivo.
Vivo?
Sim, vivo na melodia transcendente de seus “poemas-partituras” que, quando tocados, pintam novamente um homem que a borracha do tempo não conseguiu apagar.
Vivo?
Sim. Vivo em cada canto dessa terra que tão bem cuidou e exaltou.
Vivo?
Sim, Possi vive na alma dos sensíveis que jamais o deixaram empoeirado.
Vivo?
Vivo nas cordas de um velho bandolim que dedilhado em noite estrelada, declara amor.
Vivo?
Vivo até mesmo nos cupins que degustaram muitas de suas partituras por descaso dos que têm suas almas fechadas à causa da arte.
Vivo?
Vivo no hino solene que exalta uma catedral barroca no interior do Piauí.
Mas como vivo?
Vivo num poema que está escrito em nossas almas com a tinta da saudade.
Vivo?
Possi está vivo sim.
Porque Poetas e Músicos não morrem jamais, ficam eternizados em seus poemas e sons,
Que nem mesmo a crueldade do tempo, nem a frieza dos homens conseguem apagar.
Viva Possi!!
Stefano Ferreira (17- 05-2004)

Publicado originalmente em “O Estado do Piauí, o mais charmoso do Brasil”, nº3 - julho de 2004 sob o título “Retrato Vivo de Som Doce “.