ph: Cândido NetoNa Academia Piauiense de Letras possuo o meu voto. Nunca pedi que meus colegas acadêmicos me concedessem o voto que lhes pertence para eleição de candidatos de minha simpatia, pois se assim fosse Possidônio Queiroz já estaria sentado numa poltrona da casa de Lucídio Freitas, por incontestável merecimento. Humilde, simples, bondoso, amigo leal e sincero, correto nas atitudes, tem memória privilegiada, conhecimento profundo da História do Piauí e de sua antiga capital, Oeiras, riquíssima de tradições e de grandezas cívicas. Possidônio e Oeiras se confundem, fraternos, amada e amante de amor eterno. Raros no Piauí escrevem como Possidônio, linguagem escorreita, na usança do português popular ou da língua clássica quando quer, e num e noutro tem o respeito dos mestres como ele.
Gosto de Possidônio, consultório da gente de Oeiras. Venero-o. Colocou a cultura intelectual a serviço dos sentimentos de sua pátria maior, Oeiras, cuja glória abastece o Piauí sem memória e Teresina mutiladade ambições nefastas.
Casualmente folheio um jornalzinho antigo de Oeiras e me deparo com um trabalho de Possidônio, uma crônica, gênero difícil que ele domina facilmente. Homenageio-o, transcrevendo-a. Leiam-na. Curiosa concepção popular, como tudo o que presta, intitulada O Homem que dava Leite.
"Parece que ainda estou a ver. Estatura mediana, gordo, por isso mesmo parecendo mais baixo, xingador, amante de uma boa pinga, palavroso, quase valente, festeiro, vaqueiro hábil e corajoso.
Há quarenta anos, todo mundo o conhecia em Oeiras. Residente no interior do município, no lugar Malhada Real, a poucas léguas da sede, vinha constantemente à cidade. Aqui privava com as pessoas mais categorizadas. Muitos gostavam de ouvi-lo, porque a conversa entremeada de palavras menos doces, de constantes invocações ao Diabo e de pilhérias salgadas, despertavam gargalhadas estrepitosas.
Raimundo Figueiredo nunca vinha à cidade sem paletó. A camisa, porém, lhe aparecia por baixo do paletó, na frente e atrás, porque a trazia sempre por fora das calças. Isto lhe dava um aspecto bizarro.
Quando moço foi acometido de pertinaz moléstia, que, por pouco o não levou à sepultura. Permaneceu em estado de coma por vários dias. Restabelecido, contava, grave, sentencioso, que estivera no inferno e que lá vira muita gente conhecida, cujos nomes declinava. Desde então, tornou-se famigerado praguejador, vomitando injúrias, a cada momento.
O que vai dito bastava par a definição do homem que veio do “outro mundo”, sobremodo amigo do Tinhoso, amigo de tal forma que não lhe podia nunca tirar o nome da boca. Entretanto, não é sob este aspecto, que lhe queremos focalizar a personalidade. O que vamos dizer de Raimundo Figueiredo, é que ele era um homem que dava leite, e dava muito leite.
Gostava de dizer, de afirmar essa faculdade que possuía, que, de certa forma, o colocava acima dos outros homens, que não sabiam dar leite. E não admitia que ninguém lhe duvidasse da assertiva. A mais de uma pessoa, por duvidar do que ele dizia, sujou a cara e a roupa de leite. Era desacreditá-lo, e ele, num movimento rápido, sacava de sob as vestes um peito enorme, referto do líquido branco, e, sem mais demora, mandava contra o incrédulo um forte esguicho que o molhava todo.
Raimundo Figueiredo amamentou a mais de um filho. Não gostava de ouvir choro de criança. Por isso, quando a mulher saía para lavar roupa e a criança tinha fome, ele acalentava o filho pequeno, dando-lhe o peito a mamar. Daí lhe adveio o criar leite, e muito leite. Cabra macho, não ajeitava contenda.
Ginecomasto, na expressão da palavra, possuía mamas enormes. Neste particular, poucas mulheres lhe levam a palma. Podia tirar, dos grandes peitos, sempre refertos, como costumava afirmar, copos de leite. Isso, eu o ouvi dizer de mais de uma vez.
Gostava muito de sambar, de comandar as danças nos folguedos roceiros. Nas festas de casamento, nunca deixava de pronunciar discursos bombásticos, geralmente muito aplaudido.
Era perdido por mulheres. Casado, tinha cinco ou seis filhos do matrimônio e vários de contrabando. Se fosse vivo estaria escandalizado por ver tantos homens operando-se, no desejo insólito de se transformarem em mulheres. Não fez nenhuma operação. E, no entanto, tinha seios enormes e amamentou crianças. Cousas da vida! "
Esta crônica de Possidônio Queiroz foi publicada, pela primeira vez, no jornal O Vírus, 1º/FEV/1977 – Oeiras - PI
Gosto de Possidônio, consultório da gente de Oeiras. Venero-o. Colocou a cultura intelectual a serviço dos sentimentos de sua pátria maior, Oeiras, cuja glória abastece o Piauí sem memória e Teresina mutiladade ambições nefastas.
Casualmente folheio um jornalzinho antigo de Oeiras e me deparo com um trabalho de Possidônio, uma crônica, gênero difícil que ele domina facilmente. Homenageio-o, transcrevendo-a. Leiam-na. Curiosa concepção popular, como tudo o que presta, intitulada O Homem que dava Leite.
"Parece que ainda estou a ver. Estatura mediana, gordo, por isso mesmo parecendo mais baixo, xingador, amante de uma boa pinga, palavroso, quase valente, festeiro, vaqueiro hábil e corajoso.
Há quarenta anos, todo mundo o conhecia em Oeiras. Residente no interior do município, no lugar Malhada Real, a poucas léguas da sede, vinha constantemente à cidade. Aqui privava com as pessoas mais categorizadas. Muitos gostavam de ouvi-lo, porque a conversa entremeada de palavras menos doces, de constantes invocações ao Diabo e de pilhérias salgadas, despertavam gargalhadas estrepitosas.
Raimundo Figueiredo nunca vinha à cidade sem paletó. A camisa, porém, lhe aparecia por baixo do paletó, na frente e atrás, porque a trazia sempre por fora das calças. Isto lhe dava um aspecto bizarro.
Quando moço foi acometido de pertinaz moléstia, que, por pouco o não levou à sepultura. Permaneceu em estado de coma por vários dias. Restabelecido, contava, grave, sentencioso, que estivera no inferno e que lá vira muita gente conhecida, cujos nomes declinava. Desde então, tornou-se famigerado praguejador, vomitando injúrias, a cada momento.
O que vai dito bastava par a definição do homem que veio do “outro mundo”, sobremodo amigo do Tinhoso, amigo de tal forma que não lhe podia nunca tirar o nome da boca. Entretanto, não é sob este aspecto, que lhe queremos focalizar a personalidade. O que vamos dizer de Raimundo Figueiredo, é que ele era um homem que dava leite, e dava muito leite.
Gostava de dizer, de afirmar essa faculdade que possuía, que, de certa forma, o colocava acima dos outros homens, que não sabiam dar leite. E não admitia que ninguém lhe duvidasse da assertiva. A mais de uma pessoa, por duvidar do que ele dizia, sujou a cara e a roupa de leite. Era desacreditá-lo, e ele, num movimento rápido, sacava de sob as vestes um peito enorme, referto do líquido branco, e, sem mais demora, mandava contra o incrédulo um forte esguicho que o molhava todo.
Raimundo Figueiredo amamentou a mais de um filho. Não gostava de ouvir choro de criança. Por isso, quando a mulher saía para lavar roupa e a criança tinha fome, ele acalentava o filho pequeno, dando-lhe o peito a mamar. Daí lhe adveio o criar leite, e muito leite. Cabra macho, não ajeitava contenda.
Ginecomasto, na expressão da palavra, possuía mamas enormes. Neste particular, poucas mulheres lhe levam a palma. Podia tirar, dos grandes peitos, sempre refertos, como costumava afirmar, copos de leite. Isso, eu o ouvi dizer de mais de uma vez.
Gostava muito de sambar, de comandar as danças nos folguedos roceiros. Nas festas de casamento, nunca deixava de pronunciar discursos bombásticos, geralmente muito aplaudido.
Era perdido por mulheres. Casado, tinha cinco ou seis filhos do matrimônio e vários de contrabando. Se fosse vivo estaria escandalizado por ver tantos homens operando-se, no desejo insólito de se transformarem em mulheres. Não fez nenhuma operação. E, no entanto, tinha seios enormes e amamentou crianças. Cousas da vida! "
Esta crônica de Possidônio Queiroz foi publicada, pela primeira vez, no jornal O Vírus, 1º/FEV/1977 – Oeiras - PI
Arimathea Tito Filho (in memoriam)
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