terça-feira, 9 de junho de 2009

ARTE & EDUCAÇÃO

M.C. Escher (1898-1972) clique na imagem para ampliar
O texto, abaixo transcrito, foi redigido, mas não assinado, pelo professor Possidônio Queiroz. Ele o cometeu – como era useiro e vezeiro em fazer, inclusive, discursos para políticos – em 1977, atendendo ao pedido de uma equipe de alunas da Escola Normal de Oeiras que participavam de uma Gincana Escolar.

Todo homem nasce com possibilidade que se desenvolvem aos poucos, durante toda a sua vida. Possibilidades essas que se aferem pela inclinação para o campo das letras, das matemáticas, da música, das artes.

As artes, excluindo, talvez, a ciência das matemáticas, englobam em si o exercício ou o desenvolvimento das letras, das boas letras, em que se deve com muita propriedade, ver a poesia, a forma mais alta do beletrismo; – a música. Tudo isso pertence à arte, ou às artes.

O escrever é arte, e arte no seu mais excelso significado. Uma página de Rui, de Alexandre Herculano, de Euclides da Cunha, e outros que tais, é arte, e arte pura.

Um poema de Bilac (“O Caçador de Esmeralda”), ou de Menoti del Picchia (“Juca Mulato”), “Os Lusíadas”, o “I-Juca-Pirama”, é arte na expressão mais pura da palavra. Ninguém pode lê-los sem sentir na alma forte emoção, suscitada pelo belo que esses poemas despertam.

Acreditamos que a arte ajuda o homem a crescer sempre, tornando-o mais humano. Isso porque a arte dá ao individuo uma visão universal, identificando-o com o que há de maior e de melhor na face da terra. Ainda quando exercite ou desenvolva um tema de ordem pessoal, um tema de caráter ambiental, a sua inteligência, a do artista, o projeto para além do seu meio; daí que a sua arte quando conhecida alhures, até mesmo em latitudes opostas do globo, encanta e comove.

A arte tem predomínio sobre todas as almas. E isso em qualquer das suas manifestações, a arte da dança, por exemplo, atrai e encanta. Os antigos tinham razão, quando na sua estesia pelo sentimento do belo, criaram entre as musas eleitas para as diversas representações da Arte, a figura de Perpsicore, para a deusa da dança. Sim, por que a dança também é arte. Modernamente os ballets formados nas academias de canto e dança, sacodem as platéias cultas com exibição de arte pura no campo do ritmo coreográfico.

Há quem afirme que hoje a arte assume grande importância dentro do processo educativo. Cremos que em todos os tempos andaram os homens preocupados com a criatividade, através da arte. Daí os gênios que as Enciclopédias nos apontam, quer na literatura, quer na poética, quer na estatuária, na pintura, ou na música. E isso, na antiguidade, como nos tempos modernos. Artistas insígnes, que suando, sofrendo em sua luta interior para atingir a expressão da arte que os afligia, a ânsia do belo que os martirizava, lançaram para o mundo, um universo de belezas, que são estudadas e admiradas hoje, como serão sempre.

Nas obras de arte, encontra-se, todos sabem, uma mensagem para os que podem admirá-las e interpretá-las. É certo, que para muitos não tem sentido, uma estrofe de Wagner, um interlúdio de Mozart, uma quadra dolorosa de Camões, porque é preciso ter alma de artista, senso do belo para amar e entender a arte.

Aqueles a quem a natureza dotou de inteligência e clara compreensão, esse podem verbalizar, a contento, isto é, podem explicar emocionalmente, o sentido de uma balada wagneriana, a beleza sem para da Vênus de Milo, o sorriso enigmático de La Gioconda.

Pela educação, pelo aprimoramento do espírito, através do estudo, em que se desenvolvem as potencialidades do individuo, tanto da criança como do adulto, se prepara a criatura para a percepção das coisas no mundo da arte.

A arte é importante na educação. Desenvolve a criatividade e dá a criatura alto senso de humanismo, tornado-se um elemento de prol na comunidade em que vive. Nesse sentido é preciso entender-se educação não apenas como instrução. Há dissemelhança entre uma e outra. A instrução pode dar cultura, mas pode fazer também violentos, desumanos. A educação se dirige sempre a formação do homem bom, do homem cristão, do fraternalismo.

A arte dá a criatura uma visão do belo, tornando o homem mais humano, mais sensível para com o bem dos outros homens. Os antigos viam no estudo da música uma forma de tornar melhores os seres humanos.

A criatividade do homem culto, do que atingiu alto nível cientifico, se dirige, muita vez, para os inventos de morte, de aniquilamento. São os inventos infernais, é a bomba atômica e outros semelhantes, capazes de destruir a humanidade num átimo de tempo.

Contrariamente a isso, a criatividade nascida do cérebro do artista, tem sempre um sentido que se pode dizer nobre, porque vazado no campo do belo, traduzindo uma alta e verdadeira mensagem emocional, que desperta nos corações, admiração e o amor.

A educação artística é necessária, altamente necessária. Desperta o amor pela criatividade e pode dar a criatura um sentido de vivência mais humana, consoante os moldes dos ensinamentos messiânicos.

Num mundo atribulado como o em que vivemos, em que a violência se desenvolve a cada momento; em que o crime se estadeia assim, como uma forma de vida elogiável; em que a vida da criatura já vai perdendo o valor; – num mundo assim, é bom que as instituições culturais se voltem para o ensino, para o cultivo das artes, como uma forma de melhoramento da alma humana, como um meio de dar ao homem um modelar sentido fraterno de sua vivencia com os outros, a fim de que possamos, dentro de algum tempo, de um futuro não muito longínquo, riscarmos da literatura aquela frase de Henry Thomas: – “O homem é um aluno terrivelmente atrasado na escola da vida”. Sim, a fim de que possamos aprender a viver.

A arte é uma forma de melhoria da criatura. Será uma utopia pensar em um mundo sem atritos, sem maus, sem guerras. Mas, é dever de cada um, pensar em um mundo melhor. A criatividade artística, alheará da mente humana a criatividade bélica.
(Possidônio Queiroz)

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