quarta-feira, 18 de novembro de 2009

POSSIDÔNIO LEMBRADO EM TERESINA


Palácio da Música: Sala Possidônio Queiroz



O Palácio da Música será inaugurado nesta sexta-feira, a partir das 19h, com a apresentação da Orquestra Sinfônica de Teresina, Banda Sinfônica 16 de Agosto, Luiza Miranda e Erisvaldo Borges. A casa, dirigida por Luciano Klaus, é uma antiga reivindicação dos músicos de Teresina atendida pelo prefeito Silvio Mendes.

Com a inauguração nesta sexta, todos os grupos musicais terão um local apropriado para ensaios e apresentações. Segundo o maestro Linhares, da Banda 16 de Agosto, o Palácio da Música é um desejo antigo, pois há 25 anos a Banda luta por um espaço que agora é conquistado.

O local funciona no antigo Mercado do Cajueiro, no Centro da capital, e foi totalmente readaptado para receber as bandas. O espaço tem seis salas de estudo, salas de ensaios, biblioteca, uma sala para concerto denominada Possidônio Queiroz, com 140 lugares e um café concerto - destinado à música alternativa para apresentações de eventos variados, como shows musicais, lançamentos de livros, CDs, saraus, dentre outros.

Todos os ambientes têm uma acústica apropriada de forma a impedir a interferência de sons. Segundo o diretor Luciano Klaus, a Prefeitura de Teresina mantém muitos grupos de música e com esse Palácio, acredita-se que mais serão formados.

A proposta do espaço também é a formação de platéia, pois a Orquestra Sinfônica de Teresina realizará ensaios abertos ao público.


terça-feira, 14 de julho de 2009

POESIA, DANÇA E AS VALSAS DE POSSI

Espetáculo: SANGUE – inventário de histórias negadas
Foto: Jone Clay Macedo
Sangue
Resultado de um demorado, intenso e tortuoso processo de criação de uma obra coreográfica. A obra buscou movimentos escondidos dentro da própria genealogia dos intérpretes, estabelecendo o debate acerca de questões identitárias a partir de uma visão etnosertaneja do corpo. O espetáculo apresenta ao público um inventário de histórias negadas, garimpadas na rede de dominação cultural histórica a que está sujeito o corpo do negro, do índio, do caboclo.



A coreógrafa Luzia Amélia utilizou, além de sua própria experiência acumulada em 12 anos de Cia., um método de pesquisa cênica ligado ao Teatro Físico, adquirido num curso com Fernanda Branco, brasileira, radicada na Noruega. O processo empreendido gerou conjuntos individuais de movimentos, a que se chamou de núcleos. Na verdade, frases coreográficas com nuances próprias, ricas, surgidos das entranhas dos bailarinos.
O ilustre compositor do Piauí, Possidônio Queiroz, foi 'convidado' a trazer suas composições (valsas) para o ensaio. A música do falecido artista se incorporou aos movimentos do elenco, tornando-se indissociável do processo. Um novo e intenso encontro se fez, dando dimensão outra ao que se estava pretendendo.

Ficha Técnica:
Concepção/Direção: Luzia Amélia
Intérpretes: Antônia Luciana, Andréia Barreto, Drika Monteiro, Jean das Neves, Débora Radassi, Irene Gomes, Nayara Fabrícia, Samara Rocha.
Figurino: Luzia Amélia
Cenário: Cia. Luzia Amélia e Xico Fialho
Texto: Da Costa e Silva - Música: Possidônio Queiroz

O "DESCOBRIDOR"







O Maestro Emmanuel Coelho Maciel, quem "revelou" a importância da obra musical do Professor Possidonio Queiroz



sexta-feira, 26 de junho de 2009

A MOÇÃO DO DESEMBARGADOR

Cícero discursando no Senado

Prezadíssimos Pares e Senhor Procurador de Justiça:


Os segmentos representativos da comunidade piauiense estão terçando armas, buscando sensibilizar o Ministério da Cultura no sentido de se dignar em conceder justa e oportuna homenagem póstuma a Possidônio Nunes de Queiroz, oeirense de nascimento, musicista consagrado, intelectual e filólogo respeitado,outorgando-lhe a Medalha da Ordem do Mérito Cultural, instituída pela Presidência da República.

A homenagem fala por si mesma e estão a justificá-la a conduta retilínea do homenageado, a limpeza de suas metas e propósitos, a sua fina sensibilidade humana e formação de sábio e de santo, como disse o poeta e desembargador, Luís Lopes Sobrinho, ao tecer considerações sobre a sua rica personalidade.

O grande Marco Túlio Cícero, o mais perfeito modelo da eloqüência forense da latinidade clássica, procurando compensar sua origem plebéia, foi buscar na velha Grécia o veio inesgotável de sua sapiência proverbial. Em Atenas, freqüentou os cursos de Ascalão, Antíoco e Zenão. Depois, em Rhodes encontrou o seu grande mestre Possidônio de Apaméia. Com este gênio de origem síria, Cícero encerraria a sua formação clássica. Possidônio era estóico. Os estóicos ensinavam os homens a viverem na virtude, na recta ratio de Cícero, o único bem, por certo, a felicidade suprema, amável por si mesma e de si mesma prêmio.

Passados mais de vinte séculos, eis que surge outro Possidônio, o Nunes de Queiroz, também mestre ínclito de outros,que agora são mestres. O tutor das gerações inteligentes, durante quase um século. O guardião insone da nossa história, o advogado das nossas causas cívicas e culturais. O juiz retíssimo do nosso pundonor, do nosso bairrismo e da nossa hospitalidade. Porque, respeitando as raras exceções, o nosso Possidônio Nunes de Queiroz, foi o mais completo filho de Oeiras, essa terra bendita queo recebeu em seu ventre maternal e que era o único territóriosagrado do mundo que merecia a honra de guardar os seus veneráveis despojos.

Sei que foi recebido, ao falecer com noventa e dois anos de idade, no paraíso dos santos, dos sábios e dos heróis.Pelo que ele efetivamente é, para Oeiras e para o Piauí,musicista exímio e intelectual de reconhecidos méritos, sinto-me no dever de propor moção de apoio a este egrégio Plenário, após a manifestação do Ministério Público, e caso ela seja aprovada, que oficiemos ao dinâmico Ministério da Cultura, hoje dirigido pelo pulso firme e lúcido do Ministro João Luiz Silva Ferreira– o Juca Ferreira, externando a nossa manifestação.
Teresina, 17 de junho de 2009.
Des. Edvaldo Pereira de Moura

sábado, 20 de junho de 2009

POSSIDÔNIO NUNES DE QUEIROZ: O RELATO DE QUEM ESTEVE PERTO

Johann Strauss Jr.
Ao segurar no seu braço, apoiando-o pra levar ao banheiro, cozinha para almoçar ou jantar, ou até mesmo, na hora de ir dormir, lembro-me de umas coisas que achava esquisito! tinha por volta dos 8 a 10 anos de idade. Ao carregá- lo para um outro lugar ele começava: PA- PA- ra- ra- pa..., mexia as mãos com auxilio dos braços magros pra cima pra baixo e para os lados e eu, do lado, achando graça, sem saber o que era aquilo que ele cantarolava, e sem graça ao mesmo tempo, pois não sorria, voltava com ele para o velho sofá, onde permaneceu por bastante tempo sem poder enxergar. imagino hoje sua inquietude com tantas obras em mente como as do mestre Patappio Silva, Strauss. E as suas?: Valsa Nº 09 (Pagã) - dizem que a preferida dele ao invés da famosa Ceci Carmo – horas de Melancolia, Olha o Flautim (choro) e tantas outras comidas pelos papirófagos e pela memória dos músicos oeirenses que o acompanhou por tanto tempo. Mal sabia eu que com aquele meu sorriso sem graça me enganava perdido por ainda não saber que do meu lado estaria um Homem- referencia - elevado - gênio secular - sorte da seleção divina por ter parado em Oeiras tão próximo de nossa geração contemporânea.
Ah como eu sinto vontade de prosar meus centavos de conhecimento com aquele ser "esquecido" (Jose Expedito Rêgo), de soprar flauta pra ele ouvir, sorrir de mim e dizer: "muito bem 'jovem' você tem que estudar muito...", dar a felicidade de mais um graduado formar-me na área que ele tanto prezava com exatidão, até mesmo, cronológica e oficial .....ah se eu pudesse....

Rodrigo Queiroz

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Rodrigo Queiroz, bisneto de Possidônio, morou com ele na sua infância. Fortemente influenciado pela carismática figura do avô, escreveu sobre sua obra musical em monografia apresentada como TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Graduado em História, é proprietário, no Orkut, da comunidade "Possidônio, o inefável", de onde foi retirada essa crônica.


quarta-feira, 17 de junho de 2009

TEXTO DESAPARECIDO: UMA PENA!

Bernardete Maria e Niccolò Paganini (1782 - 1840)

O e-mail abaixo nos dá conta de que a Bernadete, escreveu um texto que foi extraviado (jamais chegou na minha caixa postal). Só pela palinha que ela deu falando nele, dá tristeza saber que sumiu.

De: Bernadete Maria de Andrade Ferraz
Assunto:Uma medalha para Possidônio Queiroz
Para: "Joca Oeiras"
Data: Sexta-feira, 12 de Junho de 2009, 18:28
Joca:
Suponho que fui uma das primeiras pessoas que atendeu ao seu chamado, sobre a campanha da Medalha da Ordem do Mérito Cultural, relacionada à indicação legítima e merecida do Professor Possidônio Nunes de Queiroz.

Lembro-me que meu texto dizia que a Loja do Professor Possidônio Queiroz foi a primeira Livraria que eu conheci e frequentei. Falei da atenção que ele me dispensava, cortezmente, dos papos emocionados sobre Beethoven, Paganini, Pixinguinha, e outros e outros... A minha adoslecência mereceu esse prêmio tão importante para minha curiosidade emocionada sobre os deuses distantes e tão próximos de minhas emoções. O Professor Possídônio era um mágico: fazia-nos ver, ouvir e sentir a energia de presenças encantadoras. Dando uma volta pelas esquinas daqueles tempos, vejo-o nitidamente e ouço sua verve indelével.

Bernadete Maria

No entanto, ainda não perdi as esperanças de convencê-la a reescrever!


sexta-feira, 12 de junho de 2009

NOSSO HOMEM NO MINC

Fred Maia e Ariano Suassuna
O Poeta e Arte Educador oeirense Fred Maia, atualmente exercendo um alto cargo na cúpula do Ministério da Cultura-MinC, manteve uma proveitosa e agradável conversa (MSN) comigo hoje de manhã, bem cedinho, antes do expediente no ministério.

Sendo o Fred um cara ocupadíssimo – além de tudo que faz habitualmente está viajando muito por ser encarregado, hoje, de coordenar os Debates Públicos em nível nacional sobre as modificações na Lei Rouanet – e como a conversa, como eu disse, foi muito interessante e proveitosa, propus a ele publicá-la após edição, no que aquiesceu. Ela começou assim:


– Oi Joca! Acabei de fazer uma boa leitura no Blog. Acho que vocês conseguiram juntar material suficiente para mostrar a importância do Prof. Possidônio Queiroz. São fragmentos que remontam a sua vida, obra, pensamento.

Achei maravilhoso o texto sobre a importância da arte e sua relação com a educação.Revela o conhecimento da literatura e das artes em geral, cita autores, pintores etc.

O texto, no qual se nega a defender um vereador acusado de ser o mandante de um assassinato é de uma força impressionante e, por tudo isso , creio que vocês fizeram o certo ao indicá-lo como humanista;

Seja como for, as suas músicas, também, estão lá e, além de serem lindas, demonstram a capacidade que ele tinha de transitar em várias disciplinas e de produzir arte, conhecimento e humanismo.

Lamento não ter escrito nenhum pequeno texto, para ajudar nesse processo, mas, realmente, minha vida anda atribulada e tomada de trabalho, compromissos e responsabilidades.

Creio que, baseado na apresentação/indicação que vocês fizeram, poderei corroborar, indicando-o também, com servidor da casa. Até porque, com as dificuldades citadas acima, não indiquei ninguém até agora. Então, pode ter certeza, farei a defesa da indicação pois posso afirmar que o Prof.Possidônio Queiroz merece todos as láureas que esse País possa conceder. Talvez, nenhum outro homem, no século XX, tenha vivido a vida com tanta humildade e sabedoria, tenha sido tão importante. Um homem pobre de recursos materiais, com quase nenhuma formação escolar mas com um enorme apetite intelectual.

Leu tudo: os clássicos gregos, a literatura universal e contemporânea e discutia arte, jurisprudência e ciência sem sair da sua Vila do Mocha, uma cidade que não será nunca esquecida, porque teve nele um iluminista, que a conservou em versos e partituras luminares.

Possi, além de genial, era bom! tinha a virtude da bondade - dom cada vez mais raro entre os seres humanos.

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É, como vocês podem ver, não se tratou, propriamente, de um diálogo, mas de um monólogo extremamente estimulante para a nossa causa. Falei conversa porque, embora vocês não tenham ouvido, nem ele, eu estava aqui, do outro lado, batendo palmas! Clap! Clap! Clap!

Viva Possi!

REPERCUSSÕES DA CAMPANHA

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Mesmo após consumada a indicação, a Campanha ainda repercute:

"Para nós, é motivo de muita honra apoiar a indicação do saudoso Prof. Possidônio Queirós à recepção da Medalha de Mérito Cultural reconhecendo-lhe o merecimento ainda que postumamente. Tivemos a grata satisfação de privar do convívio deste cidadão a quem consideramos , acima de tudo, um amigo. Admiramos em vida e continuamos a admirar a sua vasta e belíssima obra musical tanto que, reconhecendo-lhe a arte e o mérito, a Fundação a que presidimos (Fundação D.Edilberto Dinkelborg) escolheu dar o seu nome à Escola de Música situada na antiga Cadeia Pública de Oeiras. Conferir-lhe esta honraria significa reconhecer perante a sociedade não apenas o seu talento musical como também apresenta-lhe às novas gerações como cidadão honrado que foi, afeito ao trabalho, inclusive como homem das leis, e ao estudo numa época de poucas oportunidades e marcada pelo peconceito o que, aliás, infelizmente, mudou muito pouco. Trata-se também de reconhecer nele e na sua obra, a vocação musical de nossa terra onde temos muitos artistas ilustre; significa, também, despertar nos jovens o desejo de ultrapassar todas as barreiras que lhe são impostas e para tornarem-se cidadão dignos de sua terra; significa, enfim, apresentar aos jovens caminhos de desenvolver talentos em todas as áreas para não ficarem expostos ao vício e à violência, lembrando que a arte humaniza e desprerta sensibilidade. Parabenizamos a Fundação Nogueira Tapety por este gesto e deixamos aqui a expressão de nossa homenagem de apreço e gratidão ao Amido e Mestre Prof. Possidônio Queirós."

Pe. João de Deus de Carvalho Leal


"Cumprimento todos os apoiadores da lembrança, do respeito e do reconhecimento pelo significado social e cultural que o Professor Possidônio Queiroz significa para Oeiras e mais que suas fronteiras. A Medalha da OMC é bem quem o procura para tornar-se mais distinta ainda. Sua lembrança, de modo geral, merece esse gesto simbólico, porém eterno, como sua lembrança e obra.
Abraços"


Bernadete Ferraz


"Caro Joca Oeiras:

Recebi o texto que o amigo gentilmente me enviou, por e-mail.Desejo que você acolha, ao lado dos demais parceiros nessa importante empreitada cultura, os meus aplausos e as minhas felicitações pela iniciativa a proposta encaminhada ao MinC para a justíssima homenagem que a Fundação Nogueira Tapety pretende prestar à memória de Possidônio Queiroz, justificada da maneira mais irretocável possível.Fraternalmente,"

Theddy Ribeiro


"Excelente e merecidíssima campanha . O professor Possidônio é o suprassumo da cultura Oeirense, quiça do Piauí,especialmente no que diz respeito à música. Só me diga como faço para conseguir um CD com as belas valsas do mestre."

Edson Rogério


"Joca, que bela justificativa!

Não que eu seja assim... bairrista, porém não acredito que a história e as histórias de Possidônio não convençam ao juri do merecimento pela medalha. Pois pra mim, conhecer as faces de Possidônio Queiroz é encontrar o Mundo num pedacinho da Terra(Oeiras), é libertar sentimentos tão secretamente trancados, é encantar-se por completo sem a varinha de condão, pois Possi é a essência de Oeiras, portanto, uma amostra do mundo! Basta conhecê-lo através dos seus feitos e façanhas. Espero que consigamos mais essa vitória.
Estou torcendo pelo sucesso.
Abraços,"

Maria do Socooro Barros

quarta-feira, 10 de junho de 2009

UMA VISITA OPORTUNA

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Na tarde de ontem, terça-feira, 9 de junho de 2009, recebemos, na sede da FNT, uma não apenas ilustre e simpática mas também oportuna visita. O Pastor Francisco de Assis Ribeiro de Queiroz, hoje exercendo o Ministério Pastoral no município de Água Branca-PI, filho caçula do Professor Possidônio Queiroz veio nos visitar e congratular-se conosco pela campanha na qual, durante o último mês, estivemos envolvidos. A propósito, faremos hoje, 10 de junho, a indicação para que ele (in memóriam) receba a medalha da Ordem do Mérito Cultural.

Um Parêntese: Após a visita, conversando com o Carlos Rubem, chegamos à conclusão de que a presença do pastor Chico Queiroz na FNT, tanto a mim quanto a ele, nos fez muito bem. Pudemos sentir um sadio orgulho do que estamos fazendo. Fecha Parêntese.

Eu ainda não havia notado tanta semelhança física entre ambos, pai e filho. O Chico Queiroz, além do excelente astral que transmite, não economiza conversa sobre o pai. Contou, por exemplo, que, certa vez, Possidônio presidia a mesa de uma solenidade no Cine Teatro Oeiras quando nele adentrou o Pastor Robert Tlotson. Imediatamente o presidente declinou o nome do pastor para compor a mesa. Monsenhor Leopoldo, que já ocupava um lugar ali, ameaçou levantar-se pois, segundo alegou, não se sentia bem na mesma mesa que um Protestante. Ante a ameaça, Possi contra-atacou: “se o Caríssimo abandonar a mesa vou tornar pública esta sua justificativa. O Monsenhor pensou bem, e não completou a mal-criação que ensaiava. Chico contou, também, que seu pai teve, certa vez, a morte contratada mas o atirador arrependeu-se na última hora. Anos depois, este mesmo que ia matá-lo, Possidônio hospedou em sua casa. Outra coisa curiosa que contou, um tanto magoado, foi que, a famosa Flauta de Prata de Possi, aquela referida na belíssima “Carta ao Filho” nunca chegou às suas mãos, estando, até hoje, de posse da cunhada, viúva de Raimundo Queiroz. Apreciou bastante o nosso blog de campanha. Será o representante da família Queiroz caso a mesma consiga emplacar. Vitoriosa ela já se encontra!
Joca Oeiras

terça-feira, 9 de junho de 2009

NADA MENOS QUE A VERDADE!

Jesus Elias Tajra


Oeiras, 15 de agosto de 1990

Exmo. Sr.
Deputado Federal Jesus Elias Tajra

Em meu poder a carta do ilustre e prezado Coestaduano amigo, em que me comunica ser candidato à reeleição à Câmara Federal e desejaria receber o meu voto.

Fala dos trabalhos desenvolvidos no Parlamento, e apresenta o rol das lutas por que se baterá, em número de seis, todas admiravelmente nobres: - pela moralidade administrativa publica; melhoria do sistema educacional; por melhor saúde em nosso Estado; melhor segurança para a população; salário digno e justo para o funcionalismo e por maior e atenção do Governo Federal para o Piauí. Um programa que nada deixa a desejar.

Os que acompanham a vida dos nossos homens públicos conhecem o que muito tem feito o Egrégio Deputado. Homens como V. Exa. honram e enobrecem a nossa representação na Câmara Baixa do País.

No regime democrático, o único que é compatível com dignidade humana (infelizmente no Brasil apenas um ensaio), temos os eleitores compromissos que se tornam, às vezes, inalienáveis. Isso leva-nos a, embora reconhecendo no candidato qualidades meritórias, a agradecer, como agradeço, a delicadeza da comunicação, mas a ser obrigado a declarar, respeitosa e amistosamente, que já tem velho compromisso que desejo cumprir.

Fazendo votos porque tenha mais uma vez assento entre os nosso representantes federais, subscrevo-me.

cordialmente

Possidônio Nunes de Queiroz

ARTE & EDUCAÇÃO

M.C. Escher (1898-1972) clique na imagem para ampliar
O texto, abaixo transcrito, foi redigido, mas não assinado, pelo professor Possidônio Queiroz. Ele o cometeu – como era useiro e vezeiro em fazer, inclusive, discursos para políticos – em 1977, atendendo ao pedido de uma equipe de alunas da Escola Normal de Oeiras que participavam de uma Gincana Escolar.

Todo homem nasce com possibilidade que se desenvolvem aos poucos, durante toda a sua vida. Possibilidades essas que se aferem pela inclinação para o campo das letras, das matemáticas, da música, das artes.

As artes, excluindo, talvez, a ciência das matemáticas, englobam em si o exercício ou o desenvolvimento das letras, das boas letras, em que se deve com muita propriedade, ver a poesia, a forma mais alta do beletrismo; – a música. Tudo isso pertence à arte, ou às artes.

O escrever é arte, e arte no seu mais excelso significado. Uma página de Rui, de Alexandre Herculano, de Euclides da Cunha, e outros que tais, é arte, e arte pura.

Um poema de Bilac (“O Caçador de Esmeralda”), ou de Menoti del Picchia (“Juca Mulato”), “Os Lusíadas”, o “I-Juca-Pirama”, é arte na expressão mais pura da palavra. Ninguém pode lê-los sem sentir na alma forte emoção, suscitada pelo belo que esses poemas despertam.

Acreditamos que a arte ajuda o homem a crescer sempre, tornando-o mais humano. Isso porque a arte dá ao individuo uma visão universal, identificando-o com o que há de maior e de melhor na face da terra. Ainda quando exercite ou desenvolva um tema de ordem pessoal, um tema de caráter ambiental, a sua inteligência, a do artista, o projeto para além do seu meio; daí que a sua arte quando conhecida alhures, até mesmo em latitudes opostas do globo, encanta e comove.

A arte tem predomínio sobre todas as almas. E isso em qualquer das suas manifestações, a arte da dança, por exemplo, atrai e encanta. Os antigos tinham razão, quando na sua estesia pelo sentimento do belo, criaram entre as musas eleitas para as diversas representações da Arte, a figura de Perpsicore, para a deusa da dança. Sim, por que a dança também é arte. Modernamente os ballets formados nas academias de canto e dança, sacodem as platéias cultas com exibição de arte pura no campo do ritmo coreográfico.

Há quem afirme que hoje a arte assume grande importância dentro do processo educativo. Cremos que em todos os tempos andaram os homens preocupados com a criatividade, através da arte. Daí os gênios que as Enciclopédias nos apontam, quer na literatura, quer na poética, quer na estatuária, na pintura, ou na música. E isso, na antiguidade, como nos tempos modernos. Artistas insígnes, que suando, sofrendo em sua luta interior para atingir a expressão da arte que os afligia, a ânsia do belo que os martirizava, lançaram para o mundo, um universo de belezas, que são estudadas e admiradas hoje, como serão sempre.

Nas obras de arte, encontra-se, todos sabem, uma mensagem para os que podem admirá-las e interpretá-las. É certo, que para muitos não tem sentido, uma estrofe de Wagner, um interlúdio de Mozart, uma quadra dolorosa de Camões, porque é preciso ter alma de artista, senso do belo para amar e entender a arte.

Aqueles a quem a natureza dotou de inteligência e clara compreensão, esse podem verbalizar, a contento, isto é, podem explicar emocionalmente, o sentido de uma balada wagneriana, a beleza sem para da Vênus de Milo, o sorriso enigmático de La Gioconda.

Pela educação, pelo aprimoramento do espírito, através do estudo, em que se desenvolvem as potencialidades do individuo, tanto da criança como do adulto, se prepara a criatura para a percepção das coisas no mundo da arte.

A arte é importante na educação. Desenvolve a criatividade e dá a criatura alto senso de humanismo, tornado-se um elemento de prol na comunidade em que vive. Nesse sentido é preciso entender-se educação não apenas como instrução. Há dissemelhança entre uma e outra. A instrução pode dar cultura, mas pode fazer também violentos, desumanos. A educação se dirige sempre a formação do homem bom, do homem cristão, do fraternalismo.

A arte dá a criatura uma visão do belo, tornando o homem mais humano, mais sensível para com o bem dos outros homens. Os antigos viam no estudo da música uma forma de tornar melhores os seres humanos.

A criatividade do homem culto, do que atingiu alto nível cientifico, se dirige, muita vez, para os inventos de morte, de aniquilamento. São os inventos infernais, é a bomba atômica e outros semelhantes, capazes de destruir a humanidade num átimo de tempo.

Contrariamente a isso, a criatividade nascida do cérebro do artista, tem sempre um sentido que se pode dizer nobre, porque vazado no campo do belo, traduzindo uma alta e verdadeira mensagem emocional, que desperta nos corações, admiração e o amor.

A educação artística é necessária, altamente necessária. Desperta o amor pela criatividade e pode dar a criatura um sentido de vivência mais humana, consoante os moldes dos ensinamentos messiânicos.

Num mundo atribulado como o em que vivemos, em que a violência se desenvolve a cada momento; em que o crime se estadeia assim, como uma forma de vida elogiável; em que a vida da criatura já vai perdendo o valor; – num mundo assim, é bom que as instituições culturais se voltem para o ensino, para o cultivo das artes, como uma forma de melhoramento da alma humana, como um meio de dar ao homem um modelar sentido fraterno de sua vivencia com os outros, a fim de que possamos, dentro de algum tempo, de um futuro não muito longínquo, riscarmos da literatura aquela frase de Henry Thomas: – “O homem é um aluno terrivelmente atrasado na escola da vida”. Sim, a fim de que possamos aprender a viver.

A arte é uma forma de melhoria da criatura. Será uma utopia pensar em um mundo sem atritos, sem maus, sem guerras. Mas, é dever de cada um, pensar em um mundo melhor. A criatividade artística, alheará da mente humana a criatividade bélica.
(Possidônio Queiroz)

PELA JUSTIÇA E PELA VERDADE

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Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da Comarca de Oeiras

Há dois meses, mais ou menos, foi a nossa Oeiras sacudida com a notícia de um crime que a abalou profundamente, pela maneira fria como se executara.

Pistoleiros assoldadados pelo Sr. Vereador José Barbosa de Miranda e seu genitor Elói Barbosa de Miranda, mataram um cidadão em condições que, à vítima, não se lhe permitiu esboçar o menor gesto de defesa, abrir, sequer a boca. Apesar de me dar com o Vereador, lastimando o fato, condenei o crime, que me horrorizou.

Agora, deseja V. Exa. nomear-me defensor dativo dos criminosos. Servidor incondicional da Justiça, aqui, há mais de onze (11) lustros, desejo, no entanto, pedir a V. Exa. que me exima da obrigação de aceitar a defesa em tela.

Conheço que os criminosos, maior que seja o grau de repulsa, a que a sociedade os condene, merecem ter quem os defenda. O choque sentido com a execução fria do crime, e a idade, que já beira os oitenta e um (81) anos, me privam de maiores esforços.

Depois, não estando os criminosos foragidos, e sendo homens de recursos – prova a quantia elevada que pagaram aos pistoleiros para a prática do delito – e ainda, o fato de haverem contratado um dos advogados notáveis de Teresina, para lhes vir requer “Habeas Corpus”, tudo isso, como é lógico, faz saltar aos olhos, que os mesmos delinqüentes, proprietários e criadores, bem podem constituir advogado de seu agrado.

Espero que os argumentos atrás enfileirados, levem o conspícuo Juiz a exculpar-me do ônus da defesa criminal de que trato.

A saúde, que antes me parecia bem segura, já a sinto, injuriada pelos muitos anos sem descanso, abalada, o que me tira,, às vezes, o ânimo par certos trabalhos.

Termos em que
P. deferimento.

Oeiras, 13 de dezembro de 1984


Possidônio Nunes de Queiroz ( Provisionado)


Atenção: O Juiz a quem Possidônio Queiroz dirigiu a petição em comento é, atualmente, o Desembargador Edvaldo Moura.

O MAIOR MILAGRE DO MUNDO

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Oeiras, 29. 10. 83
Prof. Possidônio
Ouvi o seu programa “Memórias de Oeiras”. Não fiquei surpreso com a qualidade e profundidade do texto que foi lido sobre a luta pela conservação do nome de Oeiras. Com sua voz característica, com sua linguagem impecável e clássica e, acima de tudo, com sua formação autodidática, estive pensando que o senhor se confunde e identifica muito com o personagem de OG Mandino, do famoso livro “O Maior Milagre do Mundo”!
Sebastião Martins
Promotor de Justiça da Comarca de Oeiras em 1983, O Dr. Sebastião Martins é hoje Desembargador do Egrégio Tribunal de Justiça do Piauí

segunda-feira, 8 de junho de 2009

GRANDE MÚSICO OU SÁBIO HUMANISTA

No dia 12 próximo encerra-se o prazo para indicações à Medalha da Ordem do Mérito Cultural. Espero que não, mas talvez tenhamos de optar entre indicar o professor Possidônio como Compositor ou como um intelectual humanista. Questionada, a comissão encarregada de dirimir dúvidas esquivou-se, responsabilizando-nos pela escolha:– “quem indica é que deve saber!”, foi o que disseram, não sem razão.

Seja como for resolvida a questão, porque pressinto que não haverá unanimidade nas opiniões, quero adiantar a minha: sem desdouro nenhum para a sua importante obra musical; penso que o que torna excelsa a sua figura são estes predicados muito bem assinalados pelo seu velho amigo, o poeta Luiz Lopes Sobrinho, isto de ter sido a um tempo Sábio e Santo, na carcaça de um cidadão comum, na feliz expressão do Professor Cineas Santos.

Sei, perfeitamente, que se for indicado como músico não fará nenhum fiasco mas lembro que há inúmeros compositores falecidos cujas músicas influenciaram toda uma geração e já fazem parte do nosso mais legítimo patrimônio cultural, pessoas que, com suas composições, marcaram a vida de inúmeras pessoas por este Brasil afora. Teriam, as pouco conhecidas belas valsas do Professor Possidônio o condão de fazer penderem para o seu lado as preferências dos jurados? Para ser sincero eu não apostaria um centavo nessa zebra.

De outra parte, num país, como o nosso, onde a taxa de moralidade pública e privada desceu a níveis rasteiros, um país que fabrica, aos montes, universitários semi-alfabetizados, a figura impoluta e inatacável do Professor Possidônio Queiroz - negro,autodidata, baixinho, feio nas suas orelhas de abano - cujos “... atos e os fatos mais notáveis da caminhada”..., “foram, a bem da verdade, sua inquestionável solidariedade, fraternidade e amor ao próximo, mercê de sua humildade, lealdade, sinceridade e seu estado permanente e lúcido em lidar com o perfeccionismo, tendo como lema máximo, a verdade, fonte de toda sua invulgar sapiência” (dei a palavra a Francisco Pereira Ferraz), tem, certamente, todas a condições de influenciar o juri favoravelmente, ainda mais diante da campanha
que nós fizemos, mobilizando seus fieis admiradores e demonstrando, de todas as maneiras, a retidão do caráter e o profundo humanismo do Bruxo velho de Oeiras. E suas Valsas Piauienses entram como um precioso dote, podendo constituir-se num comprovante sonoro da sua genialidade.
Joca Oeiras

domingo, 7 de junho de 2009

DESAFIO VENCIDO!

A gravação deste CD representou, para os músicos da Orquestra de Câmara de Teresina Concertante, um grande desafio, teoricamente previsível, porém quase irrealizável, na hora de colocá-lo em prática, no estúdio de gravação , diante da precariedade geral que nos cerca.

Alguns defeitos técnico-musicais de interpretação das valsas, tais como mudanças de andamentos, fermatas, ataques precisos ou cortes, só poderiam ser melhorados se gravados em forma de recital (ao vivo) ou no estúdio, se todos os músicos gravassem juntos, obedecendo a interpretação do regente. Além disso, tivemos que nos curvar à necessidade brutal de acomodar 11 valsas, cada uma com seu andamento expressivo próprio (lento ou rápido) em um único CD. Resultado: alguns andamentos não deveriam ser tão rápidos, e outros, deveriam ser mais lentos.

Se, para qualquer músico experiente, já é difícil gravar este gênero musical apenas com fones de ouvido, imaginem para alunos inexperientes.

Por isso é que nos obrigamos a reduzir o efetivo da Orquestra Concertante de onze para um sexteto. Moldamo-nos ás condições técnicas de gravação existentes em Teresina

Além do mais, ao fazermos esta opção, levamos em conta, principalmente, as horas contratadas, ou seja, com a Orquestra completa (onze músicos) seriam necessárias muitas mais horas de estúdio, algo financeiramente impossível de se equacionar.

Quanto aos nossos jovens músicos de sopro, fizeram o máximo possível, ao usarem instrumentos emprestados, sem manutenção adequada (sendo uma das flautas até obsoleta) que dificultava o amalgamamento do naipe e a afinação. Passo a Passo conseguimos superar esses e aqueles obstáculos, deixando à mostra um produto final, as “valsa Piauienses de Possidônio Nunes Queiroz” como marco definitico de um est´agio musical validamente atingido no Piauí.”
Emmanuel Coelho Maciel

Transcrito do encarte do CD “Valsas Piauiense”

sexta-feira, 5 de junho de 2009

POSSIDÔNIO MERECE MUITO MAIS!

Dr. José Expedito Rêgo

Floriano, 13 de julho de 1992


Meu caro Professor Possidônio Queiroz:

Li com atenção a monografia do maestro Emmanuel. Acho que ele disse pouco a seu respeito; você merece muito mais.

Quanto à nota sobre o meu nome, basta dizer que JER nasceu na Rua do Fogo, em Oeiras, Piauí, no dia 1º de junho de 1928. é médico obstetra e escreveu letras de hinos, crônicas e dois romances, Né de Sousa e Malhadinha, bem aceitos pela crítica regional.

Lembrando a observação “proposital” de Bio, em nosso último encontro, peço que vá desculpando as minhas falhas. Jamais procurei seguir os ensinamentos de Rui. Prefiro os de Raquel de Queiroz que defende o uso da língua escrita o mais próximo possível da falada. Ela incentiva, por exemplo, o emprego do verbo “ter” de forma impessoal, no lugar de haver : “Hoje não tem aulas”. Carlos Drumond de Andrade, em um de seus famosos poemas, também escreveu: “No meio do caminho tinha uma pedra”.

Tenho aqui duas edições do Aurélio, uma de 1960 e outra de 1986. Ambas registram “proposital” e “propositado”. E nem sequer o grande mestre faz alguma restrição ao uso do primeiro vocábulo, condenando-o por desuso ou má formação

Procuro escrever certo, mas sei que estou longe de atingir a perfeição do mestre Possidônio. Por isso mesmo é que eu venho sempre resistindo aos repetidos convites que Dagoberto me tem feito, para que me candidate a uma vaga na APL. Sei que não sou digno.

Receba o abraço do seu amigo e grande admirador



José Expedito Rego

quinta-feira, 4 de junho de 2009

GALERIA DOS INESQUECÍÌVEIS

Possidônio Queiroz e Netinho da Flauta
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A INILUDÍVEL VELHICE

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POSSIDÔNIO:ODE À ESPERANÇA

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A crônica acima, de autoria do Professor Possidônio Nunes de Queiroz, foi publicada no jornal O DIA em primeiro de janeiro de 1992. A foto a ela aposta, tem função meramente ilustrativa, isto é, não se trata do Cartão Postal referido por Possidônio na supradita peça literária.

terça-feira, 2 de junho de 2009

CONSIDERO UM GRANDE PRIVILÉGIO TER SIDO SUA COLEGA DE TRABALHO

Depoimento sobre professor Possidônio Queiroz.

Eu ainda cursava o 3° ano pedagógico, quando iniciei no serviço público, trabalhando na Secretaria da Câmara Municipal ao lado do caríssimo Professor Pôssidonio Queiroz. Foi um período marcante na minha juventude, convivendo com funcionários mais velhos, experientes e atenciosos.

Ainda vive na minha memória, a presença do Professor Possidônio, na Prefeitura, de terno, atencioso, bem humorado, falante e sempre pronto para servir. Com ele aprendi muitas coisas e as “regras do bem viver”, como dizia a minha mãe, Bembém.

Constantemente estava ele a me falar de poetas, intelectuais, vidas de santos e sobretudo do “seu mestre” Rui Barbosa. Discorria sobre textos, regras de gramática além da “Réplica”, “Tréplica”, acórdãos, jurisprudência, assuntos que eu não entendia e tão pouco me interessava.

Porém, quando Possi me falava de fatos e pessoas do passado da “Velha Urbe”, aí sim, eu queria saber de tudo e o crivava de perguntas. Nas suas respostas, o professor era muito prolixo, mostrava bibliografia e algumas vezes, chegava a desconcentrar seu interlocutor, especialmente quando este era jovem ou inculto. O professor sempre estava disponível. Fosse na repartição, em casa, na rua ou no seu escritório, orientava os colegas, os novos advogados, estudantes, professores ou até mesmo algum curioso, doido ou desocupado, que o procurasse. Alguém chegou apelidá-lo de “Enciclopédia Ambulante”.

O seu respeito e carinho por crianças, era impressionante. Deixava de lado qualquer trabalho, pesquisa ou processo para ouvi-las e atendê-las. Sempre as crianças saiam alegres, felizes e ele retornava ao trabalho cantarolando.

O Professor Possidônio Queiroz foi um grande humanista, cidadão crítico e consciente, educado, defensor da nossa comunidade e acima de tudo um bom amigo, daqueles que o evangelho chama de “tesouro”. A disponibilidade em servir o próximo, pontuou sua vida até os últimos instantes.

Todos sabemos de suas qualidades e méritos como beletrista, rábula; autodidata, músico, compositor, historiador e professor. A campanha da FNT visando o reconhecimento nacional de sua memória, consubstanciada na outorga da láurea “Ordem do Mérito Cultural”, a par de ser de integral justiça,constituir-se-á, especialmente para as novas gerações, num exemplo de superação, dedicação ao estudo e crença nos valores éticos e morais.

Rita de Cássia Campos.

OEIRAS E POSSIDÔNIO: AMADA E AMANTE DE AMOR ETERNO

ph: Cândido Neto
Na Academia Piauiense de Letras possuo o meu voto. Nunca pedi que meus colegas acadêmicos me concedessem o voto que lhes pertence para eleição de candidatos de minha simpatia, pois se assim fosse Possidônio Queiroz já estaria sentado numa poltrona da casa de Lucídio Freitas, por incontestável merecimento. Humilde, simples, bondoso, amigo leal e sincero, correto nas atitudes, tem memória privilegiada, conhecimento profundo da História do Piauí e de sua antiga capital, Oeiras, riquíssima de tradições e de grandezas cívicas. Possidônio e Oeiras se confundem, fraternos, amada e amante de amor eterno. Raros no Piauí escrevem como Possidônio, linguagem escorreita, na usança do português popular ou da língua clássica quando quer, e num e noutro tem o respeito dos mestres como ele.

Gosto de Possidônio, consultório da gente de Oeiras. Venero-o. Colocou a cultura intelectual a serviço dos sentimentos de sua pátria maior, Oeiras, cuja glória abastece o Piauí sem memória e Teresina mutiladade ambições nefastas.

Casualmente folheio um jornalzinho antigo de Oeiras e me deparo com um trabalho de Possidônio, uma crônica, gênero difícil que ele domina facilmente. Homenageio-o, transcrevendo-a. Leiam-na. Curiosa concepção popular, como tudo o que presta, intitulada O Homem que dava Leite.

"Parece que ainda estou a ver. Estatura mediana, gordo, por isso mesmo parecendo mais baixo, xingador, amante de uma boa pinga, palavroso, quase valente, festeiro, vaqueiro hábil e corajoso.

Há quarenta anos, todo mundo o conhecia em Oeiras. Residente no interior do município, no lugar Malhada Real, a poucas léguas da sede, vinha constantemente à cidade. Aqui privava com as pessoas mais categorizadas. Muitos gostavam de ouvi-lo, porque a conversa entremeada de palavras menos doces, de constantes invocações ao Diabo e de pilhérias salgadas, despertavam gargalhadas estrepitosas.

Raimundo Figueiredo nunca vinha à cidade sem paletó. A camisa, porém, lhe aparecia por baixo do paletó, na frente e atrás, porque a trazia sempre por fora das calças. Isto lhe dava um aspecto bizarro.

Quando moço foi acometido de pertinaz moléstia, que, por pouco o não levou à sepultura. Permaneceu em estado de coma por vários dias. Restabelecido, contava, grave, sentencioso, que estivera no inferno e que lá vira muita gente conhecida, cujos nomes declinava. Desde então, tornou-se famigerado praguejador, vomitando injúrias, a cada momento.

O que vai dito bastava par a definição do homem que veio do “outro mundo”, sobremodo amigo do Tinhoso, amigo de tal forma que não lhe podia nunca tirar o nome da boca. Entretanto, não é sob este aspecto, que lhe queremos focalizar a personalidade. O que vamos dizer de Raimundo Figueiredo, é que ele era um homem que dava leite, e dava muito leite.

Gostava de dizer, de afirmar essa faculdade que possuía, que, de certa forma, o colocava acima dos outros homens, que não sabiam dar leite. E não admitia que ninguém lhe duvidasse da assertiva. A mais de uma pessoa, por duvidar do que ele dizia, sujou a cara e a roupa de leite. Era desacreditá-lo, e ele, num movimento rápido, sacava de sob as vestes um peito enorme, referto do líquido branco, e, sem mais demora, mandava contra o incrédulo um forte esguicho que o molhava todo.

Raimundo Figueiredo amamentou a mais de um filho. Não gostava de ouvir choro de criança. Por isso, quando a mulher saía para lavar roupa e a criança tinha fome, ele acalentava o filho pequeno, dando-lhe o peito a mamar. Daí lhe adveio o criar leite, e muito leite. Cabra macho, não ajeitava contenda.

Ginecomasto, na expressão da palavra, possuía mamas enormes. Neste particular, poucas mulheres lhe levam a palma. Podia tirar, dos grandes peitos, sempre refertos, como costumava afirmar, copos de leite. Isso, eu o ouvi dizer de mais de uma vez.

Gostava muito de sambar, de comandar as danças nos folguedos roceiros. Nas festas de casamento, nunca deixava de pronunciar discursos bombásticos, geralmente muito aplaudido.

Era perdido por mulheres. Casado, tinha cinco ou seis filhos do matrimônio e vários de contrabando. Se fosse vivo estaria escandalizado por ver tantos homens operando-se, no desejo insólito de se transformarem em mulheres. Não fez nenhuma operação. E, no entanto, tinha seios enormes e amamentou crianças. Cousas da vida! "

Esta crônica de Possidônio Queiroz foi publicada, pela primeira vez, no jornal O Vírus, 1º/FEV/1977 – Oeiras - PI
Arimathea Tito Filho (in memoriam)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

UM GRANDE BRASILEIRO!

De: Marcos Miranda souza.miranda@xxxx.com.br
Assunto: Res: Re: Res: Uma Medalha para Possidônio Queiroz
Para: "Joca Oeiras" jocaoeiras@yahoo.com.br
Data: Domingo, 31 de Maio de 2009, 19:36
Caro Joca,
Parabéns pelo trabalho em prol do resgate e promoção da memória do Professor Possidônio Queiroz.
Adiro à manifestação de reconhecimento pelo trabalho desse grande brasileiro.
Fraternal abraço,
Marcos Miranda

POSSI: A BORRACHA DO TEMPO NÃO CONSEGUE APAGAR

Quem disse que o velho Possi, de sons doces e transcendentes desapareceu?
Não. Possi está vivo.
Vivo?
Sim, vivo na melodia transcendente de seus “poemas-partituras” que, quando tocados, pintam novamente um homem que a borracha do tempo não conseguiu apagar.
Vivo?
Sim. Vivo em cada canto dessa terra que tão bem cuidou e exaltou.
Vivo?
Sim, Possi vive na alma dos sensíveis que jamais o deixaram empoeirado.
Vivo?
Vivo nas cordas de um velho bandolim que dedilhado em noite estrelada, declara amor.
Vivo?
Vivo até mesmo nos cupins que degustaram muitas de suas partituras por descaso dos que têm suas almas fechadas à causa da arte.
Vivo?
Vivo no hino solene que exalta uma catedral barroca no interior do Piauí.
Mas como vivo?
Vivo num poema que está escrito em nossas almas com a tinta da saudade.
Vivo?
Possi está vivo sim.
Porque Poetas e Músicos não morrem jamais, ficam eternizados em seus poemas e sons,
Que nem mesmo a crueldade do tempo, nem a frieza dos homens conseguem apagar.
Viva Possi!!
Stefano Ferreira (17- 05-2004)

Publicado originalmente em “O Estado do Piauí, o mais charmoso do Brasil”, nº3 - julho de 2004 sob o título “Retrato Vivo de Som Doce “.

domingo, 31 de maio de 2009

TIO POSSIDÔNIO

Desenho de Gerson Oeirense aos 8 anos

Recordo que, quando residia em Oeiras, no auge dos meus três aninhos, morava na casa da minha avó Aldenora Campos (hoje casa da tia Ceiça). Ficava exatamente ao lado da casa do "Tio" Possidônio, como eu o chamava, carinhosamente.

Lembro que fiz muitas visitas ao tio e adorava ficar entre os seus vários livros. Enquanto o meu pai conversava, filmava...eu ficava lá só olhando! O "Tio" Possidônio era sim,essa pessoa maravilhosa! Pena que o nosso querido Joca não o conheceu.

Aproveito a oportunidade do seu centenário de nascimento para agradecê-lo ao depoimento que fez em 1992 sobre como deveria ser o meu aniversário de 15 anos. Este foi guardado, sob sigilo, e exibido, pelo meu PAI, no dia da minha festa. Para mim foi um momento de muita emoção.Sei que não está aqui fisicamente mas você, "Tio" Possi estará sempre presente em nossos corações, em nossa mente através dos seus ensinamentos!

Lamento que os meus irmãos, Gérson e Letícia, não tiveram a mesma sorte que eu. A minha convivência com ele foi curta, mas inesquecível...Agora imaginem vocês uma conversa entre o tio Possi e o meu irmão Gérson?

Ia dá o que falar...

Laís Lopes Reis (2004)
_____________________________________________
Desde menina aprendi a cultuar muito a cultura, e sou uma real amante! Muito ouvia falar de Possidônio, nunca o conhecera, mas sei que, de certo, meu pai sim!
De renome nacional o grande músico flautista!....

Foi em uma de minhas leituras que, hà tempos, encontrei um velho depoimento do grande Queiroz...e passei a conhecê-lo mais...e admirá-lo...não tenho conhecimento real, mas pouco...pouquissimo!extremamente fiasco! Mas é algo que, resumido, está abaixo numa síntese "poematica" (se posso chamar assim).

Possidônio!

"Palmas...palmas!
para o maior flautista do Piauí"!
mestre Emanuel Coelho disse...
Em que posso contestá-lo?!

Negro, miúdo,
Amante da musica e leitura!
Mente grandiosa! lábios "flautisticos"
nome cultuado
cultura resplandecente!
professor!
tio Queiroz!
gratuito e elogiado
"tinha mania de ensinar"
disse ele! Doces versos magros...
espírito dispersivo!
caixão:estupefato de musica e coisas...

Instituto histórico
sócio fundador!
Dois anos secretario...
Ilustre presidente!
Orador oficial!
“multiuso”!
Qualidade incontestável!

Até o pseudo herói Prestes
Aclamado! Enriquecido das palavras de Queiroz!
Boas leituras! Os Sermões!
Lidos todos os volumes!
...do maior pregador já existente!

Conhecedor, historiador!
“Aclamador” da velha Cap!
Como dizia Luiz Carvalho:
“doce velhinha de cabelos brancos!”

centenário: aqui “jaz “ Possidônio!
guardado nos labirintos do peito!
Nas aclamações incansáveis!
Nas saudações mais que mais ilustres...

Uma Festa Magnífica

ANNA BARBARA(08/05/O4)

sábado, 30 de maio de 2009

MÚSICA QUE AMENIZA A VIA CRUCIS

Valsas piauienses: O CD
De: gislenoffeitosa gislenoffeitosa@xxxxxx

Assunto: Re: Possidônio Queiroz

Para: "Joca Oeiras" jocaoeiras@yahoo.com.br

Data: Sábado, 30 de Maio de 2009, 17:53

“Seu” Joca Oeiras (anjo andarilho):

Atolado na minha flácida ignorância, o via falar tanto de Possidônio Queiroz e nem me aluía. Quando troco de carro costumo “equipá-lo” com um CD ou DVD novo ou diferente. No último, pus um de valsinhas a fim de amenizar o sofrimento na “via crucis” (qualquer umas das pontes que ligam o centro à zona leste) da volta ao lar, toda santa noite.

Gostei tanto que nunca mudei. Minto: só o revezei, algumas vezes com o “Nascente” de Erisvaldo Borges. Pois não é que, por acaso, ele ejetou, dia desses. Imagine a minha cara de abestalhado ao ler o nome: “Valsas Piauienses” de Possidônio Nunes Queiroz.

O “Mestre” tão pertinho de mim, tocando pra mim e eu nem me tocava (desculpe a infâmia do trocadilho). Se não fosse por você, eu ainda estaria boiando! Confúcio tem mais do que razão quando diz que "A ignorância é a noite da mente: mas uma noite sem lua e sem estrelas."

Obrigado por ter desanuviado minha mente.

Do seu criado e leitor. Gisleno Feitosa.

E A MULHER, DE QUE FOI FEITA?

"Vênus e Pássaro", de Dacosta
Obra prima de Deus, esmerou-se o Eterno na criação da Mulher. Ao homem, fê-lo Jeová, de barro, a mulher, não...Feito o homem, passou o criador vários dias, pensando como faria sua obra suprema. Excogitando, imaginando como modelaria a criatura que seria a representação do próprio Deus na Terra.

A Bíblia afirma que Deus fez Eva de uma costela de Adão. Neste caso, a mulher teria vindo também de barro. A Bíblia é o livro sagrado, o livro de ouro da verdade. Mas... Prefiro pensar como se fora um poeta...Depois de ver tudo o que havia feito, e excogitando na criação de sua obra suprema, mandou o eterno, legiões de Anjos a voejarem pelo espaço e recolherem, e lhe trazerem tudo quanto de belo encontrassem.

Alígeros, de asas pandas e opalescentes, elegantes no seu vôo algo divinatório, pervagaram os emissários do Céu pelos quadrantes do orbe, e trouxeram, e entregaram ao artífice inimitável o material filigrânico que recolheram.

- Das nuvens trouxeram a alvinitência, quando esgarçadas; e as nuanças multicoloridas de suas cambiantes admiráveis;

– das estrelas, a luz palpitante de suas irisações eternas;

- do vento, a suave e doce vibração de suas auras mansas;

-dos lagos, a poesia de sua plácida quietude e o lampejo das maravilhosas tremulinas;

- dos rios, o marulho da correnteza, a defluir vagarosa, e estrondear medonho, apocalíptico, de suas cachoeiras, nas quais, no tombo da queda, a água corre apressada, gemente, angustiada, rasgando-se os bicos das pedras graníticas;

- do mar, a soberba majestade de seus enormes vagalhões indomáveis na sua força hercúlea, e o múrmuro movimento das ondas mansas, - mádido queixume lançado contra a sua eterna e irremediável prisão;

- do rouxinol e das aves que melhor cantem, a melodiosa, encantadora e envolvente musicalidade da voz;

- do pombo, a beleza de seus movimentos giratórios, de seus poéticos meneios em torno da columbina requestada, e o lírico, turturino canto com que emociona e conquista o
pequeno coração da companheira;

- da fonte dos perfumes, todos os aromas doces e embriagadores que enternecem a alma e os sentidos;

- do berço da aurora, as cores celestes, cambiantes, purpurinas, com que a mãe Natura, - paisagista como não há igual, prepara e enfeita os seus dilúculos maravilhosos, e os vai transformando, sob a sinfonia wagneriana dos pássaros, num berço de ouro, digno do nascimento do Astro Rei; e... que mais? Não sei...

O eterno recebeu todas essas coisas e amalgamou-as num vaso alabastrino, recolhendo de tudo, um pouco do melhor. Depois concentrou-se, tirando do imo, a inspiração mais alta. E, por fim, com os dedos luminescentes, plasmou, maravilhosa e artisticamente, o corpo da Mulher.


As sobras daquele amálgama soberbo, daquela mistura celeste preparada, dosada amoravelmente para a feitura da obra prima da criação, atirou-as o Senhor, sorrindo, à campina. E delas surgiram: a música e as flores...
Possidônio Queiroz

POSSI E A ERA DO RÁDIO

Émile Waldteufel (1837 - 1915), compositor de valsas francesas

Quanto às Valsas do professor Possidônio, embora possuam uma morfologia mais rebuscada à la européia, a meu ver se aproximam mais das valsas francesas. Ele se beneficiou, como toda a sua geração de músicos, poetas, artistas de modo geral, das benesses do Rádio, com a divulgação de músicas que fizeram o retrato cultural-musical do nosso povo, ouvindo Patápio Silva, Pixinguinha, entre outros chorões e, quem sabe, Villa Lobos.

Maestro Emmanuel Coelho Maciel

POSSIDÔNIO: PATRIMÔNIO CULTURAL OEIRENSE

Johann Strauss Jr
Pouco antes de dirigir-me ao centro de cultura estive ouvindo, em casa, algumas das famosas valsas de Johann Strauss (Contos dos Bosques de Viena, Danúbio Azul, Vida de Artista, Vozes da Primavera, entre outras) e atrevo-me a afirmar que tem muita semelhança o estilo do compositor oeirense com o europeu. Nada de semelhança de melodias, todas autênticas, mas de estilo. Custa acreditar que um compositor autodidata, filho da antiga Capital do Piauí, de onde nunca saiu para realizar estudos em centros onde pudesse adquirir maiores conhecimentos, tenha se esmerado tanto na feitura da sua obra.

Confesso que fiquei emocionado e maravilhado cada vez mais com o velho Possidônio Queiroz, a quem conheci em 1953 participando, junto comigo e outros candidatos, do concurso para advogado provisionado no Tribunal de Justiça, do qual ele e eu saímos com os dois primeiros lugares. Possidônio é uma figura impressionante com a qual me identifiquei rapidamente, inclusive pela condição de flautistas que fomos. Perdeu muito quem não assistiu a grandiosa festa lítero-musical que significou expressiva e merecida homenagem ao querido filho de Oeiras que dele deve se orgulhar pelo patrimônio cultural que representa.

José Lopes dos Santos

sexta-feira, 29 de maio de 2009

UM ORÁCULO EM OEIRAS?

Foi Professor, Advogado, Pesquisador, Historiador, Poeta, Filósofo, Compositor e Músico Clássico, imbuído de reputação ilibada, dotado de notabilíssima sapiência intelectual, em todos os ramos de atividades susceptíveis de atuações humanas. Era considerado no Estado do Piauí, de modo particular em Oeiras, como um Oráculo, e as suas gerações contemporâneas, nada tentavam realizar, sem antes, ouví-lo ou consultá-lo.

Os atos e os fatos mais notáveis da caminhada do provecto Professor Possidônio Nunes de Queiroz, foram, a bem da verdade, sua inquestionável solidariedade, fraternidade e amor ao próximo, mercê de sua humildade, lealdade, sinceridade e seu estado permanente e lúcido em lidar com o perfeccionismo, tendo como lema máximo, a verdade, fonte de toda sua invulgar sapiência. Todos aqueles que tiveram o prazer e o privilégio de manter com ele qualquer tipo de diálogo, ficavam extasiados com sua notabilíssima faculdade de reter idéias, impressões ou quaisquer informações de toda ordem, adquiridas ao longo do tempo.

Posso afirmar, sem receios de cometer quaisquer tipos de exageros, que tratava-se indubitavelmente de um raríssimo Autodidata, intelectual renomeado, e mais do que isso, de um Sábio e Grande Mestre.

Devo dizer, tratar-se comparativamente no tempo e no espaço, analogicamente à Astronomia, que o preclaro mestre seria semelhante ao Sistema Solar, sendo ele o Grande Astro e os demais interlocutores, de toda ordem intelectual, gravitavam em torno dele e facilmente se submetiam ao seu irretocável poder de atração, e o que era um diálogo inicial, pela própria natureza dos fatos, transformava-se, de imediato, em monólogo de indescritível beleza e subtraído de quaisquer resquícios de enfadoneidade. Ninguém se sentia incomodado ou em fase de cansaço e o monólogo às vezes se prolongava pela madrugada afora e sempre todos saíam em estado de pleno encanto e de contentamento. O procedimento era o mesmo para quaisquer que fossem os cidadãos e seus afãs: intelectuais locais, pessoas de Nível Médio, gente de escolaridade Primária, Analfabetos, intelectuais do Estado, e de outros Estados e até a nível Internacional, esses a despeito de se fazerem ouvir em idiomas estrangeiros, como foi o seu singular contacto, mantido mais precisamente a treze de agosto de mil novecentos e setenta e seis, com o Núncio Apostólico D. Carmine Rocco, por ocasião de sua visita à Diocese de Oeiras. Repito, como frizei anteriormente, todos, do Sábio Mestre , se aproximavam para dialogar, todavia, logo o diálogo voluntariamente se evoluía para um solilóquio e os interlocutores se limitavam a ouvi-lo por horas e horas a fio, sempre no intuito de aprender algo mais. Nesse afã, todos descobriam com singular relatividade e facilidade, encontrarem-se diante de um SÁBIO. Quem não gostaria de ouvir um sábio, se até as multidões o fazem e com irrestrita paciência?

O meu maior relacionamento com o insigne mestre, também se deu de forma análoga aos demais interlocutores e em uma fase da minha meninice, em razão de logo a minha Família haver se transferido para Teresina e posteriormente para o Rio de Janeiro. Nosso diálogo sempre foi de Mestre para discípulo e vice-versa. Cabe ressaltar que de nosso salutar convívio, todas as minhas indecisões e dificuldades eram sanadas em longos, didáticos e agradabilíssimos sermões. Do relato no parágrafo precedente, pode-se concluír através de pouco esforço interpretativo de que tudo o que o Professor Possidônio produziu e se exemplificou, foi muito importante e especial. Isto se evidenciará, obviamente, nas palavras de quaisquer depoentes que ousem a bibliografar este notável oeirense. Suas particularidades pertenciam aos oeirenses, indistintamente de seus matizes. Constituíam-se partes integrantes de sua invulgar personalidade. Após minha partida da Terra de Mafrense, mantivemos comunicações de caráter epistolar. Quando executava as minhas ligeiras estadas ao Piauí, atribuía-me sempre o dever de visitar o grande vate. A última visita que lhe fiz foi precisamente quando faltavam apenas trinta e cinco dias para o seu desaparecimento, ocorrido a primeiro de janeiro de mil novecentos e noventa seis.

Encontrei-o já completamente cego e com um processo de hipocofose quase completo, porém de nada se lamentava, tendo a plena convicção de tratar-se do ônus de mera longevidade e o assunto era como foi sempre o mesmo, isto é, não se tratar de doença, velhice ou seus anexos, mas somente de temas culturais generalizados. O Professor Possidônio nasceu e morreu jovem, senão vejamos: Por ocasião desta minha última visita, tratávamos de temas ligados às memoráveis atuações de Ruy Barbosa de Oliveira, como advogado, mormente, ante o Supremo Tribunal Federal ( S T F ), na consecução dos primeiros hábeas corpus no País. De imediato ele chamou a sua filha adotiva Vitória e solicitou-lhe que se dirigisse à Biblioteca e que procurasse na estante de número cinco, à prateleira número quatro, o décimo volume, a contar de baixo para cima. Isto feito, entregou-me a obra, escrita em mil novecentos e vinte e dois e disse-me, abra-a à página cinqüenta e um. Lá estavam exatamente descritos todos os assuntos de que falávamos. Esta passagem foi emociante e evidencia exatamente a sua sempre jovialidade, do nascer ao desaparecer, fruto com certeza do início muito precoce de suas atividades intelectuais nas quais atuou indelevelmente por mais de oitenta anos consecutivos, ininterruptamente.

O Professor Possidônio não era dado a participar de reportagens onde fossem utilizadas fotografias ou outros meios auxiliares mais modernos de sua época de moço. Fotografias somente as que tinham ligações eminentemente familiares e de muita privacidade. Era um grande valorizador do fator tempo e quase não o perdia, pois costumeiramente só se recolhia ao leito de repouso, pela alta madrugada, dormindo sistematicamente apenas cerca de quatro horas por dia. Até para se deslocar para uma casa comercial que possuía, lia alguma coisa durante o pequeno trajeto, daí seu ininterrupto exercício intelectual ao longo de sua caminhada em todo o curso de sua vida terrena.

O incansável amante da Terra Máter era eminentemente um homem cívico por excelência, tendo tomado parte ativamente em todas as atividades cívicas ocorridas em Oeiras, ao longo de sua caminhada, destacando-se, somente para citar algumas: - as solenidades comemorativas do centenário de nossa Independência, as campanhas para a manutenção do nome da Oeiras Invicta e as campanhas para a criação, organização, instalação e funcionamento da Diocese de Oeiras.

O grande fulgor e os desdobramentos anunciados nos sintéticos dados biográficos descritos anteriormente, levariam à edição de um volume de páginas quilométricas, não se adequando ao trabalho sinóptico que me foi solicitado.

Francisco Pereira Ferraz

Rio de Janeiro, RJ, 17 de maio de 2004 (texto inédito)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

ELE NÃO SABIA TUDO: EIS A PROVA

Joaquim Cabloclo e um Baobá
Ouvido durante uma conversa entre Joaquim Caboclo e Possidônio Queiroz:

– Dizem que você sabe tudo, Possidônio. Vamos ver se é mesmo verdade.

Você sabe me dizer qual o maior pau do mundo?

Possidônio, que não perdia a menor deixa para ensinar alguma coisa, começou a falar:

– Jovem, Sequóias são árvores enormes, nativas da América do Norte e que chegam a viver cerca de 4000 anos, Os Baobás, são árvores nativas da ilha de Madagascar, do continente africano e da Austrália e que também atingem tamanho extraordinário...

Mas o Joaquim Caboclo nem deixou Possi terminar de falar e sapecou:

– Que nada Possidônio. O maior pau do mundo é o Capitão de Campos que já nasce com a patente de Capitão.
Joca Oeiras

quarta-feira, 27 de maio de 2009

DONA CLOTILDES

Coló: uma figura!ph Rosa da Caatinga

RELEMBRANDO A COLUNA PRESTES

O Natal de 1925 transcorreu sobremodo angustioso para a Cidade de Saraiva. A Capital piauiense, transformada em praça de guerra, esteve vários dias sob ameaça de invasão, na mira dos revolucionários da “Coluna Prestes”. Todo o Piauí se agitou, sofreu, sobressaltou-se. Por toda parte se ouvia falar de revolucionários e se contavam histórias fantásticas, de que os mesmos por onde passavam, deixavam um rastro de misérias, cometiam as maiores atrocidades.

Forças egressas do malogrado movimento paulista de 05 de julho de 1924, juntaram-se a tropas do Cap. Luis Carlos Prestes e formaram a renomeada “Coluna Prestes”, a qual, sob o comando do referido Oficial e do Gal. Miguel Costa, percorreu grande parte do território nacional, tendo nas suas marchas e contramarchas palmilhado cerca de 36.000 quilômetros da terra brasílica, executando façanhas admiráveis, através dos muitos combates travados e da estratégia posta em prática, coisa que, sem nenhuma dúvida, constituíram brilhantes feitos militares.

Em novembro de 1925, penetrou a “Coluna Prestes” o território maranhense. Além dos comandantes supremos, um séqüito de oficiais valorosos e idealistas a compunham, entre eles os Coronéis revolucionários: Juarez Távora, João Alberto Lins e Barros, Osvaldo Cordeiro de Farias e Antônio de Siqueira Campos.

No Maranhão, como se lê em “Uma Vida e muitas lutas” de autoria do Egrégio Marechal Juarez Távora, estacionou a Coluna na cidade de Carolina, e dali rumou para o Piauí, visando à captura de Teresina.

Na opinião do Exmo. Sr. Gal. Moysés Castello Branco Filho. (Depoimento para a História da Revolução no Piauí), nenhum motivo político ou militar deu razão a que a “Coluna Prestes” invadisse o Piauí senão o propósito de se levar o movimento ao interior do Brasil.

O mesmo autorizado autor diz ainda, na obra citada, que ao marcharem contra Teresina, com o fito de ocupá-la, tinham os revolucionários em mira duas coisas: a apreensão de armas e munições de que estavam carentes e a repercussão do grande efeito moral que o fato constituiria.

A Cidade Verde estava bem aparelhada para a defesa. Milhares de homens a guarneciam. Uma flotilha de vapores e lanchas, fortemente armados, sob o comando do Capitão-Tenente Humberto de Área Leão, patrulhava o rio Parnaíba.

O primeiro encontro das forças de defesa de nossa Capital com os elementos rebeldes, deu-se em Benedito Leite e Uruçuí, praças essas que foram abandonadas pelos legalistas. Desses pontos, sem maiores dificuldades, salvo uma que outra escaramuça de somenos importância, seguindo a uma e outra margem do Parnaíba, chegou a famosa “Coluna” às portas de Teresina, que atacou animosamente, durante vários dias.

Com a prisão do Comandante Juarez Távora, ocorrida nos arredores de Teresina, na manhã de 31 de dezembro de 1925, e verificada a impossibilidade de capturar a capital piauiense, retiraram-se os revolucionários e se internaram pelos sertões nordestinos, por onde andaram muito tempo, enfrentando as maiores peripécias, lutando com as tropas regulares mais numerosas e, o que era pior, com hordas desenfreadas, sanguinárias de jagunços e cangaceiros.

Neste 1985, e pelo NATAL, estaremos recordando que há sessenta anos viveu a Cidade Verde, dias de grande ansiedade. Muitos dos que viram aqueles lances, e ouviram os gemidos da terra querida, e as mães chorando, rezando, imprecando; muitos dos que na noite sagrada, do NASCIMENTO, em vez da voz amiga, voz argentina dos bronzes das torres, tiveram os tímpanos auditivos cheios do estalejar sinistro dos projéteis ejetados, em raivosas rajadas das bocas das metralhadoras; muitos ainda estão vivos. Muitos.

Rememorar esses fatos históricos, é viver uma página tétrica, extraordinária da vida do Estado. Página que nos trás à memória a inquietude do povo piauiense, sobretudo da população de nossa cidade mãe; página que nos recorda o valor dos beligerantes - dos que atacavam e dos que defendiam; finalmente, o que nos traz aos corações agradecidos, a lembrança do gesto cristão, fraternal de S. Exa. Revma. o Sr. D. Severino Vieira de Melo, de saudosa memória, Bispo do Piauí, zeloso da tranqüilidade de seu rebanho, deslocando-se, a cavalo, de Teresina a Natal (hoje Monsenhor Gil), onde se encontrava o quartel general revolucionário, para parlamentar com os generais: Prestes e Miguel Costa.

Levou S. Exa a empreender essa viagem, algo arriscada, atravessando aqui e ali, contingentes revolucionários, o desejo de alcançar o levantamento do cerco da Capital, cujos habitantes viviam angustiados, tomados de pânico, temendo a possibilidade de luta sangrenta dentro das próprias ruas da cidade, de efeitos catastróficos, imprevisíveis.

O ilustre Prelado foi portador de uma carta dirigida ao Gal. Prestes pelo Cel. Revolucionário Juarez Távora, com quem D. Severino conversara demoradamente no quartel do 25º BC, no mesmo dia da prisão dele Juarez. Nessa carta se aventava a possibilidade do levantamento do cerco da capital piauiense. O documento foi entregue a Prestes no dia 03 de janeiro de 1926. “No dia seguinte Dom Severino recebeu a visita de Miguel Costa, Carlos Prestes, Cordeiro de Farias e Lourenço Lima. (Gal. Moysés Castello Branco Filho, depoimento para a – História da Revolução no Piauí).

O entendimento deu o resultado almejado. Foi, portanto, providencial a ida do Sr. Bispo a Natal. As forças rebeldes deixaram o Piauí. A Cidade Verde respirou desafogada.

Deixando o território piauiense, nos primeiros dias de janeiro de 1926, incursionou a “Coluna Prestes” pelo Ceará, Bahia e outros pontos. Todo mundo se levantou contra os revolucionários, a respeito dos quais se contavam coisas inverossímeis.

“A idéia generalizada era de que os revoltosos, não passavam de homens estranhos, de barbas longas e grande estatura capazes de proezas e atos de crueldade que ninguém sabia definir”.


Chefes políticos e ricos fazendeiros arrebanharam cangaceiros e jagunços - horda sinistra - para dar combate ao “Cavaleiro da Esperança”. Lampião, o célebre bandoleiro nordestino, teria recebido a patente de Capitão, para, à frente do seu bando, dar caça aos rebeldes. Em “O Estado de S. Paulo”, mesma edição e página atrás citada, lê-se: - “A Coluna está agora nos domínios de Franlkin de Albuquerque, chefe-jagunço a quem Artur Bernardes acaba de nomear Tenente-Coronel da reserva do Exército.” (Sic.).

Em julho de 1926, depois de marchas e contramarchas, encontra-se a “Coluna Prestes” outra vez no Piauí. Em meado desse mês acampa em Oeiras. Aqui se demora vários dias. Passando o susto do primeiro momento, entra a cidade a viver um clima de calma e até de confiança. A velha urbe estava cheia de homens barbados, que portavam lenço vermelho ao pescoço e tinha, na fala, um sotaque diferente dos nordestinos, porque muitos eram sulistas. O povo admirado sai às ruas. Olha aquela gente estranha. Conversa com chefes e soldados.

Durante o tempo que a coluna permaneceu em Oeiras, houve absoluta ordem. Somente um fato a lamentar. No dia em que aqui chegaram, a seis quilômetro da cidade, uma patrulha revolucionária deu com um vaqueiro no campo. Este, vendo homens armados, de lenço vermelho, já havendo notícias (e que notícias!...) dos revolucionários, corre. Intimado para esbarrar, acicata o cavalo e dispara. Os rebeldes vão-lhe ao encalço. Detonam armas. Um dos projéteis atinge o vaqueiro na região glútea direita, ficando alojado no corpo do paciente.

Procurado pelo Sr. Manoel do Nascimento Rego (Nesinho da Talhada), fomos, - o rabiscador destas linhas e ele - ao quartel general, aboletado no antigo Palácio Napomuceno, onde hoje se encontra o Museu de Arte Sacra.

Recebeu-nos, atenciosamente, o chefe militar Luís Carlos Prestes. Ouviu o Sr. Nesinho, tio do Florêncio, o vaqueiro baleado, a narração do fato. Lastimou o ocorrido. E mandou que o paciente fosse levado para a vasta casa da antiga Fazenda Canela, onde fora instalada a enfermaria revolucionária. Ali, um veterinário extraiu a bala. Florêncio recuperou-se.

Luis Carlos Prestes tinha, então, 28 anos. Barbado, estatura mediana, pareceu-nos, pela fala, pelos gestos e pelo olhar, um homem bom, mas sumamente preocupado. No velho sobrado atendia ele a quantos o procuravam, e pela maneira como nos recebeu, creio que solucionava, a contento, os problemas que lhe eram apresentados. Uma coisa soube-se depois, é que jamais pernoitara no sobrado. Fazia-o, cada dia, em postos diferentes dos arredores da cidade.

O povo admirava os chefes revolucionários. O Cel. Siqueira Campos foi visto por diversos em uma barbearia. Tirava a camisa devido o calor, e todos viram a cicatriz que ele tinha no ventre, resultado da melindrosa operação com que foi salvo depois do assalto a baioneta sofrido por ele, o bravo Eduardo Gomes e outros, quando a luta homérica da Praia Vermelha, em que se empenharam os dezoito de Copacabana.

Autoridades, comerciantes e pessoas de prol faziam roda e conversavam animadamente com os Oficiais. Entre estes, havia um conhecido por Te. Jordão. Um dia estávamos a conversar com ele, o Sr. Jeconias Nogueira Tapety (alto comerciante) e o autor destas linhas. Havia falta de cigarros na praça. Jeconias, conhecido por Barra Tapety, por ser baixo e gordo, pediu-lhe um cigarro e queixou-se da falta do produto na cidade. O Te. Jordão foi ao acampamento e trouxe um pacote de bons cigarros com que presenteou o queixoso.

Apesar de sempre advertidos contra as ciladas de Marte, não eram homens introvertidos. Muitos gostavam de cantar, tocar violão, relembrar os pagos idolatrados, que talvez jamais veriam. Em Floriano, conta o Cel. João Alberto, depois de um jantar em casa de pessoa simpatizante da Revolução, todos ficaram admirados, quando ele pedindo licença, sentou-se ao piano e executou alguns trechos.

Àquele tempo fazíamos de músico. Gostávamos de dedilhar o belo instrumento de Marsias criara. Souberam disso. E uma noite nos convidaram para uma tertúlia em casa do pistonista Santo Polidoro. Tínhamos então vinte e dois anos. Os de casa, sobretudo os autores dos nossos dias, ficaram aflitos. O Te. Jordão acalmou, garantindo que às vinte e duas horas estaríamos de volta, o que sucedeu.

Nas noites seguintes, vinha sempre um grupo de músicos a nossa casa. O sargento Álvaro, um moço simpático, paulista de nascimento, cantava emocionado, a valsa “Supremo Adeus”, com uns versos de que a memória só nos traz agora os seguintes: - “Adeus São Paulo terra querida / adeus, terra do meu coração, / vou partir para Mato Grosso, / vou para a Revolução.”

Gaúchos, soluçavam com os seus violões, a nostálgica, típica e conhecida canção: - “Eu nasci naquela serra / num ranchinho a beira-chão, / todo cheio de buracos / onde a lua faz clarão, / quando chega a madrugada / lá, na mata a passarada / principia um barulhão.”

O sargento Álvaro nos fez presente de uma flauta de ébano, maior, mais moderna que a nossa. Esse instrumento eles levaram. Uma noite, disseram-me: - “Vamos fazer uma serenata. Você não vai. Empreste-nos a flauta, amanhã lha devolveremos.” Fizeram a seresta. Tocaram e cantaram em nossa porta. Somente no dia seguinte soubemos. Morfeu não dos deixou ouvir nada.

Pois bem. Na noite da serenata, lá pela madrugada, tiveram de deixar Oeiras, muito à pressa. É que uma coluna do 12º RI, de Minas, vinha em perseguição a eles, e no lugar “Curralinho”, a uns 60 Km da Velhacap, houve um choque entre patrulhas avançadas dos dois corpos militares. Pela manhã restavam aqui, apenas, as forças necessárias a cobrir a retirada.

O Sr. José Nogueira Tapety, genitor do Deputado Juarez Tapety, atual Secretário de Segurança do Estado, palestrava sempre com os revolucionários. Trazia o Gal. Prestes um mapa do Brasil, relativamente pequeno e já surrado, com registro de todo o percurso feito nas andanças da Coluna ate Oeiras. Depois de entendimentos, Tapety que possuía um mapa novo e maior, trocou-o pelo dos revolucionários. Esse mapa, que se encontra em poder da Família Tapety, tem enorme valor histórico. Na carta geográfica que pertenceu ao Estado-Maior Revolucionário, lê-se ao lado esquerdo, no alto, a seguinte dedicatória: - “Marcha dos Revolucionários de 1924, percurso de 2.500 Léguas de Puerto Adela (Paraguai) a Jurumenha (2ª passagem). Lembrança ao Sr José Nogueira cTapety que nos oferereceu outro mapa mais apropriado. Oeiras, 22 de julho de 1926. A General Miguel Costa . General Luiz Carlos Prestes.”

Estas as impressões que temos dos Chefes componentes da “Coluna Prestes”: de homens que lutavam por um ideal - moralização dos costumes políticos da velha República e o voto secreto. //

Lutaram, sofreram, aforçuraram-se, numa marca sem precedentes pelo imenso território nacional, escrevendo páginas de um heroísmo invulgar, digno do maior respeito, pondo em prática táticas militares extraordinárias, livrando-se de encurralamentos de que se dizia não poderiam sair; fazendo com que esquadrões governistas se lançassem um contra o outro, num tiroteio de horas e horas, resultando disso centenas de mortes e o suicídio do Major Artur de Almeida, Comandante de um batalhão da polícia paulista responsabilizado pelo erro e chamado a responder Conselho de Guerra; e, finalmente, exaustos, deprimidos, quase sem armas e munições, dirigem-se, lutando sempre, rumo à Bolívia, onde se internam a 03 de fevereiro de 1927. Ali são asilados. Um punhado de lutadores 620 homens apenas. No dia seguinte, 04 de fevereiro, lavram-se os termos do asilo. Assinam o documento os generais Miguel Costa, Luis Carlos Prestes e o Major Heliodoro Carmona Rodo, comandante da Guarnição Boliviana da Vila de San Mathias. Era o fim.
Possidônio Queiroz