quarta-feira, 27 de maio de 2009

RELEMBRANDO A COLUNA PRESTES

O Natal de 1925 transcorreu sobremodo angustioso para a Cidade de Saraiva. A Capital piauiense, transformada em praça de guerra, esteve vários dias sob ameaça de invasão, na mira dos revolucionários da “Coluna Prestes”. Todo o Piauí se agitou, sofreu, sobressaltou-se. Por toda parte se ouvia falar de revolucionários e se contavam histórias fantásticas, de que os mesmos por onde passavam, deixavam um rastro de misérias, cometiam as maiores atrocidades.

Forças egressas do malogrado movimento paulista de 05 de julho de 1924, juntaram-se a tropas do Cap. Luis Carlos Prestes e formaram a renomeada “Coluna Prestes”, a qual, sob o comando do referido Oficial e do Gal. Miguel Costa, percorreu grande parte do território nacional, tendo nas suas marchas e contramarchas palmilhado cerca de 36.000 quilômetros da terra brasílica, executando façanhas admiráveis, através dos muitos combates travados e da estratégia posta em prática, coisa que, sem nenhuma dúvida, constituíram brilhantes feitos militares.

Em novembro de 1925, penetrou a “Coluna Prestes” o território maranhense. Além dos comandantes supremos, um séqüito de oficiais valorosos e idealistas a compunham, entre eles os Coronéis revolucionários: Juarez Távora, João Alberto Lins e Barros, Osvaldo Cordeiro de Farias e Antônio de Siqueira Campos.

No Maranhão, como se lê em “Uma Vida e muitas lutas” de autoria do Egrégio Marechal Juarez Távora, estacionou a Coluna na cidade de Carolina, e dali rumou para o Piauí, visando à captura de Teresina.

Na opinião do Exmo. Sr. Gal. Moysés Castello Branco Filho. (Depoimento para a História da Revolução no Piauí), nenhum motivo político ou militar deu razão a que a “Coluna Prestes” invadisse o Piauí senão o propósito de se levar o movimento ao interior do Brasil.

O mesmo autorizado autor diz ainda, na obra citada, que ao marcharem contra Teresina, com o fito de ocupá-la, tinham os revolucionários em mira duas coisas: a apreensão de armas e munições de que estavam carentes e a repercussão do grande efeito moral que o fato constituiria.

A Cidade Verde estava bem aparelhada para a defesa. Milhares de homens a guarneciam. Uma flotilha de vapores e lanchas, fortemente armados, sob o comando do Capitão-Tenente Humberto de Área Leão, patrulhava o rio Parnaíba.

O primeiro encontro das forças de defesa de nossa Capital com os elementos rebeldes, deu-se em Benedito Leite e Uruçuí, praças essas que foram abandonadas pelos legalistas. Desses pontos, sem maiores dificuldades, salvo uma que outra escaramuça de somenos importância, seguindo a uma e outra margem do Parnaíba, chegou a famosa “Coluna” às portas de Teresina, que atacou animosamente, durante vários dias.

Com a prisão do Comandante Juarez Távora, ocorrida nos arredores de Teresina, na manhã de 31 de dezembro de 1925, e verificada a impossibilidade de capturar a capital piauiense, retiraram-se os revolucionários e se internaram pelos sertões nordestinos, por onde andaram muito tempo, enfrentando as maiores peripécias, lutando com as tropas regulares mais numerosas e, o que era pior, com hordas desenfreadas, sanguinárias de jagunços e cangaceiros.

Neste 1985, e pelo NATAL, estaremos recordando que há sessenta anos viveu a Cidade Verde, dias de grande ansiedade. Muitos dos que viram aqueles lances, e ouviram os gemidos da terra querida, e as mães chorando, rezando, imprecando; muitos dos que na noite sagrada, do NASCIMENTO, em vez da voz amiga, voz argentina dos bronzes das torres, tiveram os tímpanos auditivos cheios do estalejar sinistro dos projéteis ejetados, em raivosas rajadas das bocas das metralhadoras; muitos ainda estão vivos. Muitos.

Rememorar esses fatos históricos, é viver uma página tétrica, extraordinária da vida do Estado. Página que nos trás à memória a inquietude do povo piauiense, sobretudo da população de nossa cidade mãe; página que nos recorda o valor dos beligerantes - dos que atacavam e dos que defendiam; finalmente, o que nos traz aos corações agradecidos, a lembrança do gesto cristão, fraternal de S. Exa. Revma. o Sr. D. Severino Vieira de Melo, de saudosa memória, Bispo do Piauí, zeloso da tranqüilidade de seu rebanho, deslocando-se, a cavalo, de Teresina a Natal (hoje Monsenhor Gil), onde se encontrava o quartel general revolucionário, para parlamentar com os generais: Prestes e Miguel Costa.

Levou S. Exa a empreender essa viagem, algo arriscada, atravessando aqui e ali, contingentes revolucionários, o desejo de alcançar o levantamento do cerco da Capital, cujos habitantes viviam angustiados, tomados de pânico, temendo a possibilidade de luta sangrenta dentro das próprias ruas da cidade, de efeitos catastróficos, imprevisíveis.

O ilustre Prelado foi portador de uma carta dirigida ao Gal. Prestes pelo Cel. Revolucionário Juarez Távora, com quem D. Severino conversara demoradamente no quartel do 25º BC, no mesmo dia da prisão dele Juarez. Nessa carta se aventava a possibilidade do levantamento do cerco da capital piauiense. O documento foi entregue a Prestes no dia 03 de janeiro de 1926. “No dia seguinte Dom Severino recebeu a visita de Miguel Costa, Carlos Prestes, Cordeiro de Farias e Lourenço Lima. (Gal. Moysés Castello Branco Filho, depoimento para a – História da Revolução no Piauí).

O entendimento deu o resultado almejado. Foi, portanto, providencial a ida do Sr. Bispo a Natal. As forças rebeldes deixaram o Piauí. A Cidade Verde respirou desafogada.

Deixando o território piauiense, nos primeiros dias de janeiro de 1926, incursionou a “Coluna Prestes” pelo Ceará, Bahia e outros pontos. Todo mundo se levantou contra os revolucionários, a respeito dos quais se contavam coisas inverossímeis.

“A idéia generalizada era de que os revoltosos, não passavam de homens estranhos, de barbas longas e grande estatura capazes de proezas e atos de crueldade que ninguém sabia definir”.


Chefes políticos e ricos fazendeiros arrebanharam cangaceiros e jagunços - horda sinistra - para dar combate ao “Cavaleiro da Esperança”. Lampião, o célebre bandoleiro nordestino, teria recebido a patente de Capitão, para, à frente do seu bando, dar caça aos rebeldes. Em “O Estado de S. Paulo”, mesma edição e página atrás citada, lê-se: - “A Coluna está agora nos domínios de Franlkin de Albuquerque, chefe-jagunço a quem Artur Bernardes acaba de nomear Tenente-Coronel da reserva do Exército.” (Sic.).

Em julho de 1926, depois de marchas e contramarchas, encontra-se a “Coluna Prestes” outra vez no Piauí. Em meado desse mês acampa em Oeiras. Aqui se demora vários dias. Passando o susto do primeiro momento, entra a cidade a viver um clima de calma e até de confiança. A velha urbe estava cheia de homens barbados, que portavam lenço vermelho ao pescoço e tinha, na fala, um sotaque diferente dos nordestinos, porque muitos eram sulistas. O povo admirado sai às ruas. Olha aquela gente estranha. Conversa com chefes e soldados.

Durante o tempo que a coluna permaneceu em Oeiras, houve absoluta ordem. Somente um fato a lamentar. No dia em que aqui chegaram, a seis quilômetro da cidade, uma patrulha revolucionária deu com um vaqueiro no campo. Este, vendo homens armados, de lenço vermelho, já havendo notícias (e que notícias!...) dos revolucionários, corre. Intimado para esbarrar, acicata o cavalo e dispara. Os rebeldes vão-lhe ao encalço. Detonam armas. Um dos projéteis atinge o vaqueiro na região glútea direita, ficando alojado no corpo do paciente.

Procurado pelo Sr. Manoel do Nascimento Rego (Nesinho da Talhada), fomos, - o rabiscador destas linhas e ele - ao quartel general, aboletado no antigo Palácio Napomuceno, onde hoje se encontra o Museu de Arte Sacra.

Recebeu-nos, atenciosamente, o chefe militar Luís Carlos Prestes. Ouviu o Sr. Nesinho, tio do Florêncio, o vaqueiro baleado, a narração do fato. Lastimou o ocorrido. E mandou que o paciente fosse levado para a vasta casa da antiga Fazenda Canela, onde fora instalada a enfermaria revolucionária. Ali, um veterinário extraiu a bala. Florêncio recuperou-se.

Luis Carlos Prestes tinha, então, 28 anos. Barbado, estatura mediana, pareceu-nos, pela fala, pelos gestos e pelo olhar, um homem bom, mas sumamente preocupado. No velho sobrado atendia ele a quantos o procuravam, e pela maneira como nos recebeu, creio que solucionava, a contento, os problemas que lhe eram apresentados. Uma coisa soube-se depois, é que jamais pernoitara no sobrado. Fazia-o, cada dia, em postos diferentes dos arredores da cidade.

O povo admirava os chefes revolucionários. O Cel. Siqueira Campos foi visto por diversos em uma barbearia. Tirava a camisa devido o calor, e todos viram a cicatriz que ele tinha no ventre, resultado da melindrosa operação com que foi salvo depois do assalto a baioneta sofrido por ele, o bravo Eduardo Gomes e outros, quando a luta homérica da Praia Vermelha, em que se empenharam os dezoito de Copacabana.

Autoridades, comerciantes e pessoas de prol faziam roda e conversavam animadamente com os Oficiais. Entre estes, havia um conhecido por Te. Jordão. Um dia estávamos a conversar com ele, o Sr. Jeconias Nogueira Tapety (alto comerciante) e o autor destas linhas. Havia falta de cigarros na praça. Jeconias, conhecido por Barra Tapety, por ser baixo e gordo, pediu-lhe um cigarro e queixou-se da falta do produto na cidade. O Te. Jordão foi ao acampamento e trouxe um pacote de bons cigarros com que presenteou o queixoso.

Apesar de sempre advertidos contra as ciladas de Marte, não eram homens introvertidos. Muitos gostavam de cantar, tocar violão, relembrar os pagos idolatrados, que talvez jamais veriam. Em Floriano, conta o Cel. João Alberto, depois de um jantar em casa de pessoa simpatizante da Revolução, todos ficaram admirados, quando ele pedindo licença, sentou-se ao piano e executou alguns trechos.

Àquele tempo fazíamos de músico. Gostávamos de dedilhar o belo instrumento de Marsias criara. Souberam disso. E uma noite nos convidaram para uma tertúlia em casa do pistonista Santo Polidoro. Tínhamos então vinte e dois anos. Os de casa, sobretudo os autores dos nossos dias, ficaram aflitos. O Te. Jordão acalmou, garantindo que às vinte e duas horas estaríamos de volta, o que sucedeu.

Nas noites seguintes, vinha sempre um grupo de músicos a nossa casa. O sargento Álvaro, um moço simpático, paulista de nascimento, cantava emocionado, a valsa “Supremo Adeus”, com uns versos de que a memória só nos traz agora os seguintes: - “Adeus São Paulo terra querida / adeus, terra do meu coração, / vou partir para Mato Grosso, / vou para a Revolução.”

Gaúchos, soluçavam com os seus violões, a nostálgica, típica e conhecida canção: - “Eu nasci naquela serra / num ranchinho a beira-chão, / todo cheio de buracos / onde a lua faz clarão, / quando chega a madrugada / lá, na mata a passarada / principia um barulhão.”

O sargento Álvaro nos fez presente de uma flauta de ébano, maior, mais moderna que a nossa. Esse instrumento eles levaram. Uma noite, disseram-me: - “Vamos fazer uma serenata. Você não vai. Empreste-nos a flauta, amanhã lha devolveremos.” Fizeram a seresta. Tocaram e cantaram em nossa porta. Somente no dia seguinte soubemos. Morfeu não dos deixou ouvir nada.

Pois bem. Na noite da serenata, lá pela madrugada, tiveram de deixar Oeiras, muito à pressa. É que uma coluna do 12º RI, de Minas, vinha em perseguição a eles, e no lugar “Curralinho”, a uns 60 Km da Velhacap, houve um choque entre patrulhas avançadas dos dois corpos militares. Pela manhã restavam aqui, apenas, as forças necessárias a cobrir a retirada.

O Sr. José Nogueira Tapety, genitor do Deputado Juarez Tapety, atual Secretário de Segurança do Estado, palestrava sempre com os revolucionários. Trazia o Gal. Prestes um mapa do Brasil, relativamente pequeno e já surrado, com registro de todo o percurso feito nas andanças da Coluna ate Oeiras. Depois de entendimentos, Tapety que possuía um mapa novo e maior, trocou-o pelo dos revolucionários. Esse mapa, que se encontra em poder da Família Tapety, tem enorme valor histórico. Na carta geográfica que pertenceu ao Estado-Maior Revolucionário, lê-se ao lado esquerdo, no alto, a seguinte dedicatória: - “Marcha dos Revolucionários de 1924, percurso de 2.500 Léguas de Puerto Adela (Paraguai) a Jurumenha (2ª passagem). Lembrança ao Sr José Nogueira cTapety que nos oferereceu outro mapa mais apropriado. Oeiras, 22 de julho de 1926. A General Miguel Costa . General Luiz Carlos Prestes.”

Estas as impressões que temos dos Chefes componentes da “Coluna Prestes”: de homens que lutavam por um ideal - moralização dos costumes políticos da velha República e o voto secreto. //

Lutaram, sofreram, aforçuraram-se, numa marca sem precedentes pelo imenso território nacional, escrevendo páginas de um heroísmo invulgar, digno do maior respeito, pondo em prática táticas militares extraordinárias, livrando-se de encurralamentos de que se dizia não poderiam sair; fazendo com que esquadrões governistas se lançassem um contra o outro, num tiroteio de horas e horas, resultando disso centenas de mortes e o suicídio do Major Artur de Almeida, Comandante de um batalhão da polícia paulista responsabilizado pelo erro e chamado a responder Conselho de Guerra; e, finalmente, exaustos, deprimidos, quase sem armas e munições, dirigem-se, lutando sempre, rumo à Bolívia, onde se internam a 03 de fevereiro de 1927. Ali são asilados. Um punhado de lutadores 620 homens apenas. No dia seguinte, 04 de fevereiro, lavram-se os termos do asilo. Assinam o documento os generais Miguel Costa, Luis Carlos Prestes e o Major Heliodoro Carmona Rodo, comandante da Guarnição Boliviana da Vila de San Mathias. Era o fim.
Possidônio Queiroz

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