sexta-feira, 29 de maio de 2009

UM ORÁCULO EM OEIRAS?

Foi Professor, Advogado, Pesquisador, Historiador, Poeta, Filósofo, Compositor e Músico Clássico, imbuído de reputação ilibada, dotado de notabilíssima sapiência intelectual, em todos os ramos de atividades susceptíveis de atuações humanas. Era considerado no Estado do Piauí, de modo particular em Oeiras, como um Oráculo, e as suas gerações contemporâneas, nada tentavam realizar, sem antes, ouví-lo ou consultá-lo.

Os atos e os fatos mais notáveis da caminhada do provecto Professor Possidônio Nunes de Queiroz, foram, a bem da verdade, sua inquestionável solidariedade, fraternidade e amor ao próximo, mercê de sua humildade, lealdade, sinceridade e seu estado permanente e lúcido em lidar com o perfeccionismo, tendo como lema máximo, a verdade, fonte de toda sua invulgar sapiência. Todos aqueles que tiveram o prazer e o privilégio de manter com ele qualquer tipo de diálogo, ficavam extasiados com sua notabilíssima faculdade de reter idéias, impressões ou quaisquer informações de toda ordem, adquiridas ao longo do tempo.

Posso afirmar, sem receios de cometer quaisquer tipos de exageros, que tratava-se indubitavelmente de um raríssimo Autodidata, intelectual renomeado, e mais do que isso, de um Sábio e Grande Mestre.

Devo dizer, tratar-se comparativamente no tempo e no espaço, analogicamente à Astronomia, que o preclaro mestre seria semelhante ao Sistema Solar, sendo ele o Grande Astro e os demais interlocutores, de toda ordem intelectual, gravitavam em torno dele e facilmente se submetiam ao seu irretocável poder de atração, e o que era um diálogo inicial, pela própria natureza dos fatos, transformava-se, de imediato, em monólogo de indescritível beleza e subtraído de quaisquer resquícios de enfadoneidade. Ninguém se sentia incomodado ou em fase de cansaço e o monólogo às vezes se prolongava pela madrugada afora e sempre todos saíam em estado de pleno encanto e de contentamento. O procedimento era o mesmo para quaisquer que fossem os cidadãos e seus afãs: intelectuais locais, pessoas de Nível Médio, gente de escolaridade Primária, Analfabetos, intelectuais do Estado, e de outros Estados e até a nível Internacional, esses a despeito de se fazerem ouvir em idiomas estrangeiros, como foi o seu singular contacto, mantido mais precisamente a treze de agosto de mil novecentos e setenta e seis, com o Núncio Apostólico D. Carmine Rocco, por ocasião de sua visita à Diocese de Oeiras. Repito, como frizei anteriormente, todos, do Sábio Mestre , se aproximavam para dialogar, todavia, logo o diálogo voluntariamente se evoluía para um solilóquio e os interlocutores se limitavam a ouvi-lo por horas e horas a fio, sempre no intuito de aprender algo mais. Nesse afã, todos descobriam com singular relatividade e facilidade, encontrarem-se diante de um SÁBIO. Quem não gostaria de ouvir um sábio, se até as multidões o fazem e com irrestrita paciência?

O meu maior relacionamento com o insigne mestre, também se deu de forma análoga aos demais interlocutores e em uma fase da minha meninice, em razão de logo a minha Família haver se transferido para Teresina e posteriormente para o Rio de Janeiro. Nosso diálogo sempre foi de Mestre para discípulo e vice-versa. Cabe ressaltar que de nosso salutar convívio, todas as minhas indecisões e dificuldades eram sanadas em longos, didáticos e agradabilíssimos sermões. Do relato no parágrafo precedente, pode-se concluír através de pouco esforço interpretativo de que tudo o que o Professor Possidônio produziu e se exemplificou, foi muito importante e especial. Isto se evidenciará, obviamente, nas palavras de quaisquer depoentes que ousem a bibliografar este notável oeirense. Suas particularidades pertenciam aos oeirenses, indistintamente de seus matizes. Constituíam-se partes integrantes de sua invulgar personalidade. Após minha partida da Terra de Mafrense, mantivemos comunicações de caráter epistolar. Quando executava as minhas ligeiras estadas ao Piauí, atribuía-me sempre o dever de visitar o grande vate. A última visita que lhe fiz foi precisamente quando faltavam apenas trinta e cinco dias para o seu desaparecimento, ocorrido a primeiro de janeiro de mil novecentos e noventa seis.

Encontrei-o já completamente cego e com um processo de hipocofose quase completo, porém de nada se lamentava, tendo a plena convicção de tratar-se do ônus de mera longevidade e o assunto era como foi sempre o mesmo, isto é, não se tratar de doença, velhice ou seus anexos, mas somente de temas culturais generalizados. O Professor Possidônio nasceu e morreu jovem, senão vejamos: Por ocasião desta minha última visita, tratávamos de temas ligados às memoráveis atuações de Ruy Barbosa de Oliveira, como advogado, mormente, ante o Supremo Tribunal Federal ( S T F ), na consecução dos primeiros hábeas corpus no País. De imediato ele chamou a sua filha adotiva Vitória e solicitou-lhe que se dirigisse à Biblioteca e que procurasse na estante de número cinco, à prateleira número quatro, o décimo volume, a contar de baixo para cima. Isto feito, entregou-me a obra, escrita em mil novecentos e vinte e dois e disse-me, abra-a à página cinqüenta e um. Lá estavam exatamente descritos todos os assuntos de que falávamos. Esta passagem foi emociante e evidencia exatamente a sua sempre jovialidade, do nascer ao desaparecer, fruto com certeza do início muito precoce de suas atividades intelectuais nas quais atuou indelevelmente por mais de oitenta anos consecutivos, ininterruptamente.

O Professor Possidônio não era dado a participar de reportagens onde fossem utilizadas fotografias ou outros meios auxiliares mais modernos de sua época de moço. Fotografias somente as que tinham ligações eminentemente familiares e de muita privacidade. Era um grande valorizador do fator tempo e quase não o perdia, pois costumeiramente só se recolhia ao leito de repouso, pela alta madrugada, dormindo sistematicamente apenas cerca de quatro horas por dia. Até para se deslocar para uma casa comercial que possuía, lia alguma coisa durante o pequeno trajeto, daí seu ininterrupto exercício intelectual ao longo de sua caminhada em todo o curso de sua vida terrena.

O incansável amante da Terra Máter era eminentemente um homem cívico por excelência, tendo tomado parte ativamente em todas as atividades cívicas ocorridas em Oeiras, ao longo de sua caminhada, destacando-se, somente para citar algumas: - as solenidades comemorativas do centenário de nossa Independência, as campanhas para a manutenção do nome da Oeiras Invicta e as campanhas para a criação, organização, instalação e funcionamento da Diocese de Oeiras.

O grande fulgor e os desdobramentos anunciados nos sintéticos dados biográficos descritos anteriormente, levariam à edição de um volume de páginas quilométricas, não se adequando ao trabalho sinóptico que me foi solicitado.

Francisco Pereira Ferraz

Rio de Janeiro, RJ, 17 de maio de 2004 (texto inédito)

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