Aí por 1967, inaugurou-se a sede própria das Lojas Pernambucanas, em Oeiras. Houve muitas promoções, queimas. De passagem pela cidade, foi contratado certo trovador para apresentar um show em frente à referida empresa comercial, na boca da noite de um dia que se perdeu nos desvãos da minha infância profunda. Evento animado. Em dado instante, o repentista perguntou à platéia: – Qual foi o homem que se casou com mil mulheres? Oferecia um prêmio. Fez-se silêncio. Ninguém se habilitou a responder àquela provocação.Ora, menino curioso que fui, sabia de quem se tratava, pois tinha lido algo a este respeito na coleção Titãs da História, da biblioteca da Casa das Moças, minhas velhas tias. Não obstante, dirigi-me à livraria do Professor Possidônio Queiroz, ali pertinho, situada no Mercado Público, para me inteirar direito. Não podia errar! O distinto autodidata procurou fazer uns arrodeios falando de poligamia, mas eu tinha pressa. Foi assim que ele me confirmou a resposta. Quando saía daquele ambiente, emendou: – O Rei Sábio teve, segundo a Bíblia, 700 esposas e 300 concubinas. Cheguei ofegante no meio da multidão gritando sem parar: Salomão! Salomão! Salomão!...
Na manhã seguinte, minha mãe, Aldenora Campos, anunciou-me uma visita. Era o Professor Possidônio Queiroz que veio especialmente me cumprimentar pelo prêmio arrebatado. Encheu minha bola! Parabenizou meus familiares pela minha façanha. Porém, não comentou que tinha me dado aquela dica. Compenetrado, mostrei-lhe a camisa “Volta ao Mundo” que ganhei.
Assaltam-me estas lembranças quando se aproximam as comemorações do Ano Jubilar em regozijo pelo centenário de nascimento do escritor e músico oeirense, Possidônio Nunes de Queiroz, a ter início no dia 17 de maio vindouro [2004]. E tudo que se possa fazer para realçar a sua memória é pouco diante do muito que ele devotou às causas caras à nossa terra.
Poderia citar vários episódios protagonizados pelo meu ídolo, por mim testemunhado, todos recheados de humanismo transbordante. Claro, não caberia nesta página de saudade!
Na Festa do 24 de Janeiro do ano passado, lancei a idéia da criação do Memorial Possidônio Queiroz solicitando a todos, inclusive às autoridades locais e estaduais presentes, o empenho necessário no sentido de assim se materializar o reconhecimento mais expressivo de Oeiras e do Piauí ao nosso homenageado. No entanto... Sim! É preciso que aqueles que o conheceram de perto ou que saibam de sua inteligência socializadora possam dar o seu contributo no sentido de estimular, colaborar com o revigoramento da nossa consciência coletiva, identidade cultural.
No final de sua existência, cego, sofrendo de acentuada surdez, tornei-me uma espécie de seu secretário, com muito orgulho. Nunca se maldisse dos achaques da vida. Era um homem humilde por vocação, feliz!
Creiam: a maior alegria que sentiu no derradeiro ano de sua digna vivência foi saber que sua obra musical fora resgatada pelo maestro Emmanuel Coelho Maciel. Logo antes de se esvair por completo, recomendou-me que não deixasse, em seu nome, de agradecer, mais uma vez, ao seu benfeitor. O CD Valsas Piauienses contendo suas composições não chegou a tempo para que o velho Possi, assim chamado na intimidade, pudesse curtir suas próprias sublimações artísticas.
A monografia que enfeixa a sua obra musical esgotou-se logo no lançamento. Os poucos exemplares que lhe coube, ofereceu-lhes a alguns amigos e parentes. Indaguei-lhe, brincando, se ele iria se esquecer de mim. Com sua mansuetude característica, tateando, abriu a gaveta da sua mesa de trabalho e me entregou a plaqueta com uma dedicatória que a transcrevo a seguir com incontida emoção: “À Trindade Sagrada, constituída pelos anjos: Laís, Gérson e Letícia, a quem Jesus homenagearia se viesse a este mundo e que são a própria representação de um sorriso de Deus no lar feliz de Carlos Rubem e Dirce Reis; a estes três anjinhos ofereço com reverente devoção, este exemplar do livro Memória Piauiense, em que se diz algumas cousas de criaturas e fatos da nossa Oeiras. Enternecidamente, Possidônio Queiroz. Oeiras, 03 de julho de 1995”.
Meu velho Possi! Sei que o caríssimo não aprovaria o que vou dizer, mas me perdoe a passionalidade: só os ingratos, insensíveis te esquecerão!
Carlos Rubem Campos Reis
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