segunda-feira, 18 de maio de 2009

PRESTES EM OEIRAS

Em 1926 , chefiando a famosa Coluna que levou seu nome, Luís Carlos Prestes esteve em Oeiras e Possidônio Queiroz, jovem músico de 22 anos, confraternizou com os chamados revoltosos. Sessenta e um anos depois, em 1987, acompanhado de sua filha (com Olga Benario) Anita Leocádia, Prestes retornou à Primeira Capital do Piauí e foi recepcionado com um discurso do próprio Possidônio. Abaixo, sua transcrição na íntegra.

"Exmo. SenhorLuiz Carlos Prestes:

A vossa vinda a Oeiras é motivo de satisfação para a ex-Metrópole do Piauí. A vossa presença, hoje, na cidade invicta onde o Piauí nasceu ficará registrada nos anais dos acontecimentos marcantes da vida de nossa terra, como um fato histórico, a guardar-se para posteridade.Já estiveste aqui, Senhor, em permanência mais demorada que a de agora. Nos idos de 1926, pelo mês de julho, quando a Nação se estorcia, gemendo, sob as tenazes de um governo de exceção; quando o Brasil vivia sob o império de um governante que atravessou o seu período administrativo em contínuo estado de sítio, trazendo arrolhadas as consciências e inquieta a alma dos filhos da terra de Santa Cruz; - naquela época estiveste aqui à frente da renomeada “Coluna Prestes”, e aqui, com outros bravos, vos demorastes por vários dias.Gonfaloneiro de um nobre, alevantado ideal, desfraldaste, lado de outros insígnes Oficiais do Exército, autênticos valores militares, a Bandeira da Revolução salvadora, e por ela vos aforçurastes, lutastes por ela, com todo o poder de que éreis capaz, com todas as energias, emprestando ao movimento, todo o vigor de vossa mocidade sadia e esperançosa.Ao tempo da juventude, o vosso cérebro crepitava em faíscas admiráveis, no ingente labor pela busca do saber.

Daí a maneira brilhante como cursastes a Escola Militar no Rio de Janeiro, em que aos 22 anos de idade, vos laureastes engenheiro, como o primeiro da turma.Os ensinamentos bebidos na severa escola dos êmulos de CAIXAS, vos acrisolaram o ingênito amor pela Pátria, herdado ao vosso genitor, Oficial do Exército, que, segundo se diz, teve ativa participação na queda do regime monárquico.Sonháveis, então, e sonhais ainda, com um Brasil forte, rico, equânime, pai generoso de todos os seus filhos; com um Brasil em que não haja nababos apodrecendo de ricos, na expressão popular, tampouco mães famintas, emagrentadas, esqueléticas, mirradas pela fome crônica, de olhos esgazeados, girando espantosos nas órbitas escuras, dando o seio murchos aos filhinhos semi-mortos, como na visão dolorosa de Raquel de Queiroz.

Esse sonho patriótico por um Brasil melhor, por um Brasil bom, por um Brasil isento de injustiças sociais, - gênese, não há dúvida, das muitas violências que nos afligem -; esse sonho, melhor, esse desejo, vos levou, desde o primeiro 5 de julho, de que, por moléstia, não pudeste tomar parte; a vos insurgir contra o estado de coisas reinante.A malfadada carta, dada a lume no dia 9 de novembro de 1921 no “CORREIO DA MANHÔ, um dos órgãos mais importantes da imprensa carioca; carta insultuosa aos Oficiais do Exército, vincou fortemente a vossa alma.Não obstante a negativa do indigitado autor, o exame grafológico da missiva em apreço, lançou dúvidas, não pequenas, no espírito de muitos. Outros fatos de suma gravidade, somados a distorções que se praticavam amiúde, foram agitando o cenário político brasileiro, aborrecendo o ânimo de apreciável parte da oficialidade, até a eclosão do segundo 5 de julho. Este em 1924. Foi o movimento paulista daquele ano.Servíeis, então, no Rio Grande do Sul. Mas, olhos voltados para o movimento paulista, vistes, com tristeza, a sua derrocada, e a retirada dos bravos, que sempre lutando, se deslocavam, valentemente, para a Foz do Iguaçu.

Com o vosso idealismo, coragem e prestígio, preparastes, com outros, um levante na terra dos pampas, e, em fins de outubro ou começo de novembro, abrindo caminho à força de recontros sangrentos, fostes vos juntar, com os valorosos companheiros que vos acompanhavam, aos denodados revolucionários paulistas, iniciando-se então, a marcha da célebre Coluna que a história recolheu com o nome de “Coluna Prestes”.O ano de 1925, foi, pode-se dizer, o das grandes marchas e contramarchas, iniciadas por vós no Rio Grande do Sul, e postas em prática na enorme caminhada por todo o Brasil, marchas e contramarchas, mais desenvolvidas em 1926.Era a guerra de movimento, em que com a vossa estratégia vos tornastes invencível; a guerra guerreada de que nos fala o Apóstolo de Havia, na extraordinária e erudita disputa travada entre ele e o eminente filólogo Ernesto Carneiro Ribeiro, no começo deste século, quando da questão celebérrima pela redação do Código Civil.

O vosso gênio militar, a tática que puseste em prática e que desnorteava as numerosas forças, que de todos os lados marchavam contra a Coluna; constituíram páginas que não fora ainda escrita nos anais da história brasileira.O Brasil inteiro, estarrecido, acompanhava os feitos, quase increditáveis dos valorosos componentes da Coluna.O General Miguel Costa, os Tenentes Coronéis revolucionários Juarez Távora, Antônio de Siqueira Campos, Osvaldo Cordeiro de Farias, João Alberto Lins e Barros, Djalma Soares Dutra, - falange admirável - e outros agoniados da verdade e da justiça, convosco à frente, palmilharam naqueles dias difíceis, indômitos, os caminhos intérminos deste Brasil gigante.A imprensa oficial infamava, cotidianamente, o nome dos chefes revolucionários. Atribuindo aos mesmos, por onde passavam, crimes inomináveis. Era preciso criar na alma do povo, um clima de repúdio, de animadversão ao movimento militar, que se fazia exatamente para dar a esse povo uma posição de relevo no contexto da vida nacional, para fazer esse povo respeitado, para tirá-lo da simples condição de massa; para dar-lhe vontade, compreensão de que sem o seu concurso consciente, o Brasil não seria jamais a grande nação que desejamos.A Imprensa blaterava, o povo desavisado acreditava e temia. Mas, a vossa presença, por onde passáveis com a Coluna, ia desarticulando distorções aleivosas, despertando confiança nas populações, e não raro, conquistando adeptos.

Como Chefe do Estado da célebre Coluna, éreis, por todos admirado, respeitado e estimado. O vosso tato, a simpleza no tratamento com os oficiais, a sisudez amiga com os inferiores, o senso do justo nas decisões; criaram em torno da vossa pessoa e do vosso nome, uma aura de verdadeiro carisma.Não se pode negar, e é possível que um ou outro fato desagradável, haja ocorrido durante a marcha, partido de elementos sem nome e sem compostura. Maior que fosse a vossa autoridade, e a tínheis realmente indiscutível, não possuíeis o dom supremo da ubiqüidade.Exmo. SenhorLuiz Carlos Prestes!A vossa marcha pelo interior do Brasil, foi para vós, como um extraordinário, magnífico e alto compêndio de geografia pátria, por qualquer faceta que se queira apreciar.Vistes a grandeza potencial do Gigante, que alguém disse adormecido em berço esplendido e que é preciso ser despertado. Contemplastes os campos ubérrimos, as terras férteis em que se podem praticar todas as culturas vegetais, porque, tudo aqui, já dizia o primeiro cronista brasileiro, “em se plantando dá”. Apercebestes-vos, se bem que à ligeira, da grandiosidade das nossas jazidas minerais, das minas inexploradas, capazes, por si, somente, para tornar a nossa terra, uma das inexploradas, capazes, por si somente, para tornar a nossa terra, uma das mais ricas e opulentas do mundo. Atravessastes rios majestosos, imensas artérias, a cingir em mádidos abraços, o corpo varonil da terra brasílica, e a correr inaproveitados para o mar, num desperdício enorme, sem nome, da linfa preciosa, como se o oceano ainda precisasse de mais água.

Nas horas silentes das noites límpidas do Nordeste calcinado, quando a Coluna dormitava; ouvidos e olhos atentos, perscrutáveis os rumores da floresta, e vigiláveis com os astros, sofrendo, matutando, a pensar no futuro da Pátria, a que tanto queríeis, a qual tanto quereis.O nosso maior sofrimento, porém, nascia e se alimentava da visão que nos oferecia o povo ignaro, em grande parte explorado, levando vida quase infra-humana. Então, o generoso coração do “Cavaleiro da Esperança”, sofria e se irava. Não era a ira dos maus, era a ira dos bons, de que muitas vezes se vêem atacados os santos e os justos, no pensamento excelso de RUY BARBOSA.Era o repúdio aos que governavam mal; aos que, em nome de uma democracia canhestra, servia-se do povo apenas como trampolim para galgar posições de mando. E uma vez alçados a essas posições, era o povo, como sói acontecer ainda, o grande esquecido. O que ainda se vê, nos dias atuais, segundo a imprensa, são as mordomias, o favoritismo aos grandes, a cessão gratuita de mansões luxuosas aos protegidos, os salários altos a funcionários fantasmas, os ordenados astronômicos aos “marajás”, etc. Tudo isso, já se vê, à custa do povo.

Os vossos dignos companheiros de luta, tinham em vós, o grande condutor. Tanto que, encerrada a marcha heróica, sustentada quase incrivelmente durante mais de dois anos, e quando se arregimentavam forças idealistas para a arrancada do ano de 1930, era na vossa pessoa que viam todos, civis e militares, o Chefe indicado.Vós, porém, já não acreditáveis no regime brasileiro. O que vistes e sofrestes nos anos em que palmilhastes as terras de nossa Pátria, vos levaram a meditar fundamente noutra estrutura política. Os chefes militares perderam o valoroso Comandante que desejavam. Houve a cisão inevitável, por todos sinceramente lastimada.Mas,a alma de todos, apesar das fortes divergências de ideal que levaram a eles e a vós para campos opostos; - apesar das divergências inconciliáveis, continuastes a merecer o mesmo respeito, o mesmo acatamento, que a vossa inteligência, a vossa cultura, a vossa sinceridade de propósito vos haviam judiciosamente granjeado.

O notável advogado Heráclito Fontoura Sobral Pinto, que sofreu convosco nos dias ominosos da ditadura Vargas, que durante oito anos esteve ao nosso lado, defendendo-vos; Sobral Pinto divergiu frontalmente de vossa nova orientação. No entanto, em longa missiva que vos dirigiu em 27 de abril de 1945, confessou publicamente o respeito, a amizade que vos tributava.

O Marechal Juarez Távora, figura inolvidável de militar brasileiro, dissentido também das idéias expendias por vós em manifestos publicado; escreveu, em repúdio ao referido manifesto, a 31 de maio de 1930, o seguinte:“Sinto, sinceramente, ter de dizê-lo, pois, há muito, me habituei a admirá-lo, ouvi-lo e acatá-lo, como um verdadeiro guia, por sua experiência, sua cultura, sua ponderação”.Perdoai-me Senhor, essa digressão. Ela me pareceu necessária, como um ligeiro enfoque, para mostrar ao auditório, a grandeza de vossa personalidade, o valor que todos os que integravam a renomeada Coluna, reconheciam em seu General.

Oeiras, Exmo. Senhor, nos idos de 1926, vos conheceu, Comandante da Coluna que hoje tem o vosso nome. Vários dias vos demorastes aqui. Foram dias tranqüilos para a ex-Metrópole do Estado. Vossa presença era penhor de segurança para a população da velha terra.Agora, experimenta a cidade invicta, novamente, a satisfação de vossa presença; já, não como aquele guerreiro que combatia os desmandos do governo Artur Bernardes. Mas como o Líder que o Brasil todo admira e conhece. Como o Líder cujo nome extrapolou as fronteiras nacionais e se espairou por outros povos, deste, e do continente europeu.A vossa visita, disse, de começo, constitui para nós, acontecimento de relevo.

O Instituto Histórico de Oeiras promoveu esta sessão para homenagear-vos. E sente-se prazeroso por vos poder saudar por um dos seus fundadores, e o mais velho dos seus membros.A vossa mística, Senhor, não é de nossa Entidade. O IHO não comunga convosco das idéias que esposais. Pouco importa. O arraigado sentimento cívico, o extremado amor à Pátria Brasileira, nos confunde, afinando, sintonizando os nossos desejos, por um Brasil grande, soberanamente justo. Embora o queiramos por caminhos que não são os mesmos, reverenciamos o homem, o patrício ilustre que escreveu uma página heróica como Chefe da “Coluna Prestes”, página que estarreceu o mundo, fazendo com que, naquela época, muitas nações tivessem os olhos voltados para nós.

O Instituto Histórico de Oeiras, Exmo. Sr. Luiz Carlos Prestes, vos dá boas vindas à nossa cidade, e vos saúda, mui respeitosamente. Saúda, igualmente, com grande e fraternal alegria, a exma. e ilustre patrícia, Professora Anita Leocádia Prestes, cuja presença em nossa urbe, é motivo de exultação para a terra máter do Piauí e de grande prestígio, de extraordinário prestígio para esta sessão solene.

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