terça-feira, 19 de maio de 2009

UM CURRÍCULO PARA POSSIDÔNIO

"Como indivíduo que não possui sequer diploma do curso primário, me arrojei muitas vezes..." Possidônio Queiroz
No dia em que o Professor Possidônio Queiroz completou 86 anos de idade, em 17 de maio de 1990, recebeu a visita de sua amiga a Professora Rita Campos. Além de cumprimentá-lo, Rita lhe fazia uma espécie de convocação: queria que Possidônio fizesse uma palestra durante as comemorações do centenário de nascimento do grande poeta Nogueira Tapety que ocorreria no final daquele ano. Como Possidônio recusasse, a Rita, com a sua bela e potente voz, exaltou-se, argumentando no sentido de que isso era uma espécie de missão irrecusável tendo em vista a enorme importância que se conferia à efeméride e que Possidônio “não poderia fugir de tão honrosa incumbência” como relata o próprio Professor em um ‘”bilhete” (sic) com 7 páginas datilografadas, endereçado à mesma Rita Campos e datado de 17 de julho de 1990.

No histórico “bilhetinho”, além de reclamar de seu precário estado de saúde, razão pela qual recusava-se a ser o orador do evento, Possidônio roga permissão para “lembrar, à ligeira, as vezes em que, chamado, pude atender à voz da velha terra. E isso sem exigir nem um –Muito Obrigado!”

Passa, então, a relatar, em 29 itens, as ocasiões em que, instado, falou em nome ou prestou serviços a Oeiras. Apesar de, no final, afirmar que “aos poucos serviços que arrolei, poderia juntar muitos outros, se fosse respigá-los...”creio que este documento, por ele assinado, pode ser considerado seu assumido currículo.

Não quero, e nem saberia, valorar a importância de cada um dos itens arrolados, mas, apenas para que se tenha uma idéia da disparidade entre eles, cito a elaboração dos estatutos do “Oeiras Clube” (1949), um dos itens enumerados que participa da mesma lista de feitos tais como, o discurso em homenagem a Luiz Carlos Prestes (1987) ou um outro (1976), estratégico, feito como saudação a Dom Carmine Rocco, Núncio Apostólico do Brasil, em quem se buscava apoio para que a Diocese permanecesse com sua sede em Oeiras, ou mesmo, toda a campanha, de que participou ativamente, pela criação da mesma, nos anos 40. Aliás, parece-me que esta lista espelha bem a personalidade do “Bruxo Velho de Oeiras”: Possidônio dava-se integralmente a tudo o que fazia, fosse uma palestra para casais encontristas; fosse a vitoriosa campanha, por ele iniciada, para que Oeiras conservasse o seu topônimo, ou mesmo a composição de uma música (a Valsa nº 9, também conhecida por “Pagã”), com que presenteou sua vizinha e anfitriã, Dona Salomé de Freitas Tapety, convidado que fora para Ceia Natalina de 1941.

Seja como for, este “bilhete” constituiu-se, para mim, num verdadeiro achado pois fiquei, ainda mais, convencido de que cada episódio da vida do Professor Possidônio Queiroz se constitui em um item do vastíssimo currículo que ele construiu na sua frutuosa vida.

Soube de uma história muito interessante: certa vez o comerciante Antônio Carvalho, apelidado “o Jovem”, procurou Possidônio pedindo a ele que fizesse um discurso para ser lido no “cabaré do Ciço Cego” durante um dos famosos bailes que ali se realizavam. Morro de curiosidade para conhecer o teor desse discurso que, pelo que conheço de Possi, certamente estava carregado do mais profundo lirismo. Pena que esta oração se perdeu nos desvãos do tempo. Seria uma importante contribuição ao já volumoso currículo do reverenciado Mestre.

Joca Oeiras

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