quinta-feira, 14 de maio de 2009

AS LÁGRIMAS DE UM TITÃ

Colado à orquestra numa derradeira tentativa de ouvir sua música


Já não era sem tempo. Ao contrário, há muito que o professor Possidônio Nunes de Queiroz, um gigante da cultura oeirense e sem dúvida um dos grandes expoentes da inteligência do Piauí, merece receber uma homenagem no nível da que lhe foi prestada no Cine-Teatro de Oeiras, no início deste junho.

Possidônio Queiroz não é famoso. Afora os oeirenses e os intelectuais do Piauí, poucos o conhecem. Contudo, na sua humildade, jamais teve a fama por meta. O que ele sempre buscou foi o Conhecimento, a realização pessoal, o desenvolvimento cultural da sua cidade. Não publicou livros, não é acadêmico, mas seu trabalho merece ser preservado em prol da memória piauiense, em benefício das novas e futuras gerações, porque precioso arquivo de verdades históricas, fruto de muito estudo e aprofundadas pesquisas.

Numa noite esplendorosa, a feliz e oportuna iniciativa do Instituto Histórico de Oeiras, sob a presidência do Dr. Antonio Reinaldo Soares Filho, coroou-se de êxito sob todos os aspectos. Na ocasião foi lançado o livro Memória Piauiense - Possidônio Queiroz, editado pela Fundação JET, que vem resgatar um rico acervo musical até então praticamente inédito. O livro traz vários depoimentos de figuras ilustres no cenário artístico e cultural do Estado e alguns escritos do professor Possidônio, que proporcionam aos que não o conhecem uma razoável visão de quem é o autor das partituras ali registradas para a posteridade.

O evento teve muitos momentos brilhantes, mas o ponto alto foi a exibição primorosa da Orquestra de Câmara de Teresina, da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, regida pelo conceituado maestro Emmanuel Coelho Maciel.

Enquanto a orquestra executava algumas das suas valsas, o homenageado, 91 anos de idade, cego e surdo, sentado entre duas flautas, instrumento da sua paixão, ouvia precariamente, com a ajuda de aparelho, e todo o seu corpo falava das emoções que o percorriam. Era notório seu embevecimento, sua expressão era de êxtase total, é como se ele se sentisse a flutuar. Havia em seu semblante uma ternura tamanha, uma muda mensagem de amor de alguém que se encontra em plena paz consigo, com o mundo e com Deus. Acredito mesmo que naquele momento ele viu desfilar em sua mente os acontecimentos mais marcantes da sua vida, as amizades que conquistou, a grande obra que construiu, não apenas como músico, mas também como poeta, cronista, historiador, professor, orador e homem de bem que sempre foi.

Naquele momento o mestre sentiu o reconhecimento do seu povo e dos seus pares. Percebeu que conquistara a imortalidade, que na sua trajetória escrevera um capítulo importante na História de Oeiras. Naquele momento ele se viu invadido pelo encanto da melodia que se espalhava pelo ar e pelo sentimento que emanava da platéia enfeitiçada ante a magia da sua música. Naquele momento ele se sentiu, enfim, realizado. E chorou.

O pranto lhe veio aos olhos, deslizou pela face, e todos viram. Não era o pranto dos medrosos, dos covardes ou dos melodramáticos. Era o pranto dos fortes; o pranto da sensibilidade e da emoção. Prova de que, como ele próprio fez questão de enfatizar em seguida, no discurso de agradecimento, os grandes homens também choram. A História mostra inúmeros casos de homens que choraram e nem por isso foram menos homens, talvez até tenham se mostrado maiores com tal demonstração de humanidade. Ele discorreu então sobre uma galeria de personalidades que abrangia desde Péricles até Pelé, de Jesus Cristo a Leônidas Melo, numa verdadeira apologia ao choro.

Possidônio Queiroz não alcançou a fama, porém com certeza encontrou a felicidade. Especialmente naquele momento supremo, ele sentiu o que é ser feliz. E percebeu que, como bem disse Voltaire, "um instante de felicidade vale mais que mil anos de celebridade".

Ele chorou, sim, mas não chorou sozinho. Não fora a cegueira que o tempo lhe impingiu e ele poderia ter testemunhado o pranto da platéia comovida, que o acompanhou em sua indescritível emoção.

Gutemberg Rocha

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